Economia

Bens bloqueados e consultoria internacional: como Fernando Cinelli paga a conta?

Alvo de investigação da Polícia Federal, ex-presidente da Apex está com R$ 5 milhões bloqueados em suas contas bancárias, por decisão judicial. Mesmo assim, contratou a FTI Consulting, empresa internacional especializada em consultoria financeira, contabilidade forense e investigações corporativas, que, de acordo com o mercado, pode estar cobrando de R$ 1 milhão a R$ 3 milhões por seu trabalho.

Elimar Cortes 19 de Outubro de 2026 3 min de leitura
Bens bloqueados e consultoria internacional: como Fernando Cinelli paga a conta?

Uma das notícias que ganharam repercussão na semana passada no caso Apex Partners foi a contratação da FTI Consulting por Fernando Cinelli, o ex-presidente da empresa, para realizar uma apuração “independente” sobre as operações da empresa. O que ainda não foi esclarecido é quanto custa esse trabalho. E quem está pagando, já que a Justiça bloqueou R$ 5 milhões das contas bancárias de Cinelli, que virou alvo de Inquérito Policial aberto pela Polícia Federal para investigar as suspeitas de crimes contra o sistema financeiro que teriam sido praticados por ele. As investigações foram instauradas por meio de Representações levadas pela própria Apex ao Ministério Público Federal.

A FTI Consulting é uma empresa internacional especializada em consultoria financeira, contabilidade forense e investigações corporativas. Considerando a complexidade de uma apuração desse porte, uma das perguntas que permanece sem resposta é o valor dos honorários e a origem dos recursos usados para pagar a equipe. A cifra de R$ 1 milhão a R$ 3 milhões chegou a ser cogitada como estimativa de mercado, mas não há confirmação pública de que esse seja o preço do contrato firmado por Cinelli.

A pergunta ganha peso diante da situação judicial do ex-presidente. Em agosto deste ano, a Justiça determinou o bloqueio de seus bens e a quebra de seu sigilo bancário, após pedido da própria Apex. A empresa  também levou ao Judiciário questionamentos sobre movimentações financeiras sem lastro que somam R$ 23,25 milhões e que, segundo seus levantamentos, teriam beneficiado Cinelli.

A ampliação do bloqueio para esse montante foi solicitada pela empresa, enquanto a defesa do empresário contesta as acusações e busca reverter as restrições. Na última sexta-feira (16/10), Cinelli, inclusive, sofreu outro revés ao ter seu pedido de desbloqueio das contas negado no Tribunal de Justiça. Foi quando o desembargador Raphael Câmara, da 2ª Câmara Cível, decidiu manter o bloqueio dos bens de Cinelli até o montante de até R$ 5 milhões. O acusado não conseguiu provar como os milhões foram parar na sua conta. O magistrado, porém, suspendeu a quebra do sigilo bancário do ex-presidente da Apex.

Foto CinelliO fato se torna ainda mais inusitado pelo seguinte: Cinelli foi afastado após apurações internas da própria Apex identificarem que o sucesso vendido pela companhia na verdade era um castelo de cartas que desabou do dia para a noite. De um dia para o outro a empresa passou a responder a um processo de recuperação judicial com uma dívida na casa de R$ 1 bilhão.

Outras dúvidas: a consultoria “independente” vai apurar a acusação de desvios de R$ 23 milhões para as contas pessoais dele? A concentração de poder na Apex também será apurada? Fernando Cinelli era presidente do Conselho de Administração, diretor-presidente do Grupo, administrava as mais de 170 empresas da companhia e administrava todas as contas bancárias. Um verdadeiro quebra-cabeça digno de Sherlock Holmes, que envolve cifras bilionárias e muitos interesses.

O que se vê, no entanto, é uma estratégia de quem é investigado tentar passar para a posição de quem dá as cartas - talvez para tentar confundir o jogo. Mas o ex-todo-poderoso da Apex não convence à Justiça e, segundo informações de bastidores, muito menos os credores que esperam dele uma explicação para o rombo na Apex.