Política

CRISE FINANCEIRA SACODE O PAÍS: Endeusado por bolsonaristas, presidente do Paraguai renuncia por causar colapso político e social

Elimar Cortes 06 de Novembro de 2026 6 min de leitura
CRISE FINANCEIRA SACODE O PAÍS: Endeusado por bolsonaristas, presidente do Paraguai renuncia por causar colapso político e social

Endeusado por bolnaristas, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou na tarde de quinta-feira (05/11) a renúncia ao cargo, em meio a uma crise financeira causada pela intervenção do Banco Central Paraguaio (BCP) no banco digital Ueno Bank.Image Abandonado pelo próprio partido, que passou a cobrar sua renúncia, Peña justificou a decisão em nome da estabilidade do país e da necessidade de “preservar nossas instituições”. O vice-presidente Pedro Allana assumirá o cargo.

“Me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis da minha vida, com o coração voltado para o Paraguai e com a convicção de que a nossa República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância”, disse o presidente, em pronunciamento nas redes sociais. “A história se encarregará de julgar e colocar na sua devida dimensão os acontecimentos que hoje nos cabe vivenciar. Tomei a decisão de apresentar a minha renúncia à Presidência da República”, acrescentou Santiago Peña.

Foto Presidente 01O anúncio da renúncia foi feito no momento em que a Câmara dos Deputados do Paraguai – chamado pelos bolsonaristas de a “Suíça da América do Sul – aprovava a abertura de um processo de impeachment contra o presidente. Em seguida, o Senado paraguaio realizou sessão em que foram apresentadas as acusações contra o presidente Santiago Peña no caso Ueno Bank.

Os senadores ouviram, durante uma hora, os argumentos da acusação apresentados por sete deputados designados pela Câmara para atuar como acusadores. Nesta sexta-feira (06/11), está prevista uma nova sessão, em que o presidente do Congresso, Basilio Núñez, convocou Peña "para que apresente sua defesa e as provas das quais pretenda se valer" na próxima sessão.

A continuidade do processo de impeachment é importante porque, no Paraguai, todo ex-presidente tem direito ao cargo de senador vitalício, com direito a voz no Parlamento, mas não a voto. A exceção é para os presidentes cassados, que perdem direito ao cargo e ao foro privilegiado.

Crise

A crise financeira que sacudiu o Paraguai começou na terça-feira (03/11) e se transformou em crise política. Na manhã de quinta-feira, a Câmara iniciou o debate para abertura de um processo de impeachment que contava com o apoio até mesmo da legenda do mandatário, o Partido Colorado. 

Foto BancoO terremoto político no país vizinho é consequência da liquidação do Ueno Bank, que tinha 2,9 milhões de correntistas, cerca de 60% da população adulta do país. Essas pessoas tiveram seus depósitos congelados. Após a liquidação do banco, o presidente do BC paraguaio, Carlos Carvallo, renunciou ao cargo. Ele foi dirigente do banco digital até 2023, antes de assumir a chefia do Banco Central do país.

Presidência

A crise atingiu o presidente Santiago Peña porque ele foi acionista, até março de 2025, do Grupo Vázquez, que controla o banco. Eleito em 2023, o Santiago Peña é um político da direita conservadora do Partido Colorado que há sete décadas controla o poder no Paraguai, exceto por cinco anos (2008-2013). A oposição acusa o governo pelos investimentos realizados pelo Instituto de Seguridade Social (PIS), que é estatal, no Ueno Bank. O banco digital ainda administra o pagamento de pensões de milhares de aposentados e tem cerca de 30% dos depósitos de fundos públicos, estimados em US$ 850 milhões.

A oposição responsabiliza Peña pela crise por ele ter nomeado para presidente do BC um ex-dirigente do Ueno. Ao anunciar a renúncia, o presidente pediu desculpas ao povo paraguaio.

“Também quero pedir desculpas ao povo, caso em algum momento eu tenha falhado. Nunca foi minha intenção trair a confiança que depositaram em mim. A cada dia, assumi esta responsabilidade com a vontade de trabalhar pelo Paraguai”, afirmou Peña.

Partido Colorado

O presidente do Partido Colorado e ex-presidente do país, Horácio Cartes, afirmou que a legenda não estará ao lado “do latrocínio de fundos públicos, privados e dos aposentados”. A oposição acusa o Partido Colorado de querer se afastar do escândalo que teria ajudado a construir. A deputada do Partido País Solidário (PPS), Johanna Ortega, destacou, durante a sessão da Câmara, que os recursos dos aposentados estavam sendo depositados em um banco próximo ao presidente Peña.

“Temos alertado sobre conflitos de interesses, sobre a utilização de instituições públicas para favorecer negócios privados de uns poucos, e sobre o crime de gestão em proveito próprio — prática na qual este Presidente da República tem incorrido sistematicamente”, afirmou.

O Paraguai conta com um fundo garantidor que pode reembolsar até US$ 38 mil por pessoa, o que representa ₲ 228.300.000 na moeda local, o equivalente a 75 salários-mínimos.

Consequências econômicas

Foto Banco 01A crise financeira e política do Paraguai abala a reputação que o país vinha construindo de destino emergente da América do Sul para o capital estrangeiro, com repercussões sobre a economia local. A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) destacou, em nota, que duas em cada três transações das grandes redes varejistas do país são realizadas por contas do Ueno Bank.

“Ocorrerá, sem dúvida, uma semiparalisação do mercado comercial no Paraguai. Essa situação não nos afeta apenas no âmbito comercial; ela impacta também o cotidiano das famílias, afetando, assim, a vida diária de milhões de pessoas”, disse o comunicado publicado na mídia local.

No Brasil, grupos políticos vêm defendendo que o país vizinho seria um exemplo de sucesso econômico e financeiro. O antropólogo Salvador Schavelzon, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que a admiração desses grupos com o Paraguai vem da ocupação que o agronegócio do Brasil realiza no país vizinho.

“A direita brasileira acha que é um paraíso porque já estão com os contatos políticos estabelecidos lá. Tem até agências do Banco do Brasil, e se fala em português em escolas públicas, contrariando a lei paraguaia. É como um terreno ocupado pelo agronegócio brasileiro”, afirmou o estudioso da realidade paraguaia.

Foragido do Brasil, Flávio Bolsonaro elogiou presidente do Paraguai durante a campanha eleitoral

Durante a campanha para presidente do Brasil, o senador Flávio Bolsonaro –    que fugiu para os Estados Unidos logo depois de ser derrotado pelo presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – elogiou o presidente Santiago Peña, aliado de Donald Trump na América do Sul. Flávio elogiou Peña por “modernizar o Estado” e “investir em governo digital”. “Parabéns ao Paraguai pela visão de futuro”, exaltou.

Foto LucianoE mais: o empresário Luciano Hang, dono das lojas Havan, fez o seguinte chamado durante a campanha eleitoral no Brasil: “Empresários brasileiros, venham para o Paraguai!”, conclamou. “Aqui empresário não paga a ineficiência do governo. Aqui você paga poucos impostos. Pode se desenvolver, pode crescer”, animou-se o bilionário catarinense.

Luciano Hang é bolsonarista de carteirinha. Ele havia sido convidado pelo presidente Santiago Peña para visitar o País e aproveitou a viagem para propagandear as maravilhas de Assunção. “Olha só os prédios. Muita modernidade! Você nota nas ruas e nas pessoas a alegria. Parabéns, Paraguai!”, derramou-se.

Em visita ao palácio presidencial, Hang descreveu a gestão de direita como um “exemplo para toda a América Latina”. “Fiquei impressionado. Eles estão no governo para servir o país”, enalteceu, estendendo as loas a ministros e assessores.