Sem falar inglês e sem documentação migratória, Felipe Sousa-Lazaballet deixou Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e chegou sozinho a Miami, nos Estados Unidos, aos 14 anos. Quase 25 anos depois, o carioca fez história ao se tornar o primeiro brasileiro eleito para a Assembleia Legislativa da Flórida. Ele derrotou a republicana Bonnie Jackson nas eleições de meio de mandato americanas, conhecidas como midterms, cuja votação terminou na terça-feira (03/11).
Filho de uma empregada doméstica e mãe solo cearense, Felipe cresceu em uma casa inacabada em Santa Cruz da Serra, em Duque de Caxias. Nas redes sociais, ele contou que as janelas eram cobertas com plástico para impedir a entrada da chuva, a água vinha de um poço e não havia iluminação elétrica. A rua não tinha asfalto e o esgoto corria a céu aberto.
A mãe trabalhava em três empregos, das 5 horas até a noite, para sustentar a família. A mudança de Felipe para os Estados Unidos aconteceu em 2001, depois que a irmã mais velha, que havia emigrado seis anos antes, cumpriu a promessa de levá-lo para o país antes que completasse 15 anos. Como a mãe não conseguiu visto, Felipe viajou sozinho e passou a viver com a irmã, que já morava em Miami.
Imigrante
A relação com a política americana, no entanto, começou antes da conquista da cidadania. Em 2010, integrou uma caminhada de aproximadamente 2.400 quilômetros entre Miami e Washington, D.C., organizada para reivindicar mudanças na legislação migratória. Aos 26 anos, o brasileiro foi contemplado pelo DACA, sigla em inglês para Ação Diferida para Chegadas na Infância. Criado em 2012, durante o governo do ex-presidente Barack Obama (Democratas), o programa oferece proteção temporária contra a deportação e autorização de trabalho a determinados imigrantes que chegaram aos Estados Unidos ainda crianças, que é o caso de Felipe.
Em 2020, quando se casou com Luis Sousa-Lazaballet, Felipe já havia obtido o green card, por meio de uma petição familiar. No ano seguinte, conquistou a cidadania americana. Antes de chegar ao Legislativo estadual, trabalhou em organizações voltadas à defesa dos direitos dos imigrantes e da comunidade LGBTQ+. Também integrou, durante cinco anos, a administração do prefeito de Orlando, Buddy Dyer.
Com a eleição, torna-se também o primeiro ex-beneficiário do DACA a integrar o Legislativo estadual dos Estados Unidos. Após a vitória, Felipe, de 40 anos, recorreu às redes sociais para agradecer aos eleitores e associar sua trajetória ao chamado sonho americano.
"Não há palavras para expressar a honra e a gratidão que sinto nesta noite. Minha história é o sonho americano: cheguei aqui sem documentos, sem nada em meu nome, e agora terei o privilégio extraordinário de lutar pelos meus amigos e vizinhos como representante eleito", escreveu o democrata.
Entre as principais bandeiras apresentadas pelo brasileiro estão medidas para enfrentar o aumento do custo de vida, ampliar a oferta de moradias acessíveis, fortalecer o financiamento das escolas públicas e melhorar o acesso aos serviços de saúde.
O bom desempenho, porém, não foi suficiente para garantir o acesso à universidade que desejava. Nos últimos anos do ensino médio, ao procurar orientação para ingressar na Florida State University, descobriu que não poderia seguir o mesmo caminho dos colegas: não tinha número de Social Security, documento equivalente ao CPF brasileiro, e não podia obter carteira de motorista nem concorrer às mesmas bolsas de estudo.
(Fonte: O Globo)