Política

Lideranças evangélicas marcam distância estratégica do bolsonarismo após derrota nas urnas e carta golpista de Flávio

Elimar Cortes 03 de Novembro de 2026 5 min de leitura
Lideranças evangélicas marcam distância estratégica do bolsonarismo após derrota nas urnas e carta golpista de Flávio

Depois de ensaiarem uma neutralidade na eleição presidencial e terem aderido com mais vigor à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, lideranças evangélicas de igrejas como a Universal e as Assembleias de Deus passaram a adotar um distanciamento estratégico do grupo político do senador, em especial após a tentativa do candidato derrotado ao Planalto de contestar o resultado das urnas e a fuga para os Estados Unidos. O vaivém de pastores em relação a Flávio ocorre em meio ao desempenho abaixo do esperado, em outubro, de políticos ligados ao segmento: enquanto nomes do bolsonarismo aumentaram suas votações com acenos aos fiéis, parlamentares apoiados por igrejas perderam espaço e acabaram não se reelegendo.

Foto BispoLideranças das maiores igrejas do Brasil, porém, têm procurado demarcar distância de Flávio desde a derrota eleitoral e da publicação de uma carta com teor golpista após a chegada aos EUA, na semana passada. No dia seguinte à eleição, o bispo Alessandro Paschoall, uma espécie de porta-voz de assuntos políticos da Universal, republicou o trecho de um culto no qual o bispo Edir Macedo, líder da igreja, afirma não concordar com o lema “Deus, pátria e família”, usado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

“Na Universal, nós priorizamos essa hierarquia: primeiro Deus, depois família, e depois o resto. Não concordo com essa teoria ‘Deus, pátria e família’. Porque se não houver família, vai haver pátria? Impossível. Só há pátria se vier da família, que vem de Deus”, discorreu Macedo na ocasião.

A fala do bispo ocorreu na manhã da votação do segundo turno, após uma postura dúbia da Universal na campanha: políticos ligados à igreja, como o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, apoiaram Flávio Bolsonaro no embate direto contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas pastores próximos a Macedo ficaram em cima do muro.

Paschoall, por exemplo, publicou vídeos afirmando que seu espectro político “não é de direita ou de esquerda, e sim do reino de Deus”. Ele também lamentou derrotas de candidatos da Universal ao Legislativo: metade dos 12 deputados federais da igreja fracassou nas tentativas de recondução à Câmara.

O cenário destoa do adotado pela Universal nas eleições de 2018 e 2022, quando Edir Macedo declarou apoio a Bolsonaro, e líderes da igreja alegaram que cristãos não poderiam votar na esquerda. Reservadamente, pessoas próximas à igreja fazem a avaliação de que a adesão à direita beneficiou mais o bolsonarismo do que a própria congregação, que perdeu espaços.

Já o bispo Inaldo Silva, vereador pelo Republicanos no Rio, considera a declaração de Macedo neste ano não uma represália a Flávio, mas sim uma tentativa de evitar atritos internos: “Não podemos subestimar alguém que teve mais de 60 milhões de votos. A neutralidade veio porque a gente acaba escolhendo um lado e perdendo muito, na nossa comunidade há pessoas da direita e da esquerda”, diz.

Foto Bispo 02Na Assembleia de Deus de Madureira (Rio), que apoiou Flávio no segundo turno após seus candidatos ao Legislativo também terem amargado derrotas em Estados como São Paulo e Rio, o bispo Abner Ferreira reconheceu a vitória de Lula já no dia seguinte à eleição. Antes, ele chegou a participar de um culto em outubro, no Rio, no qual seu irmão, o bispo Samuel Ferreira, recomendou voto em Flávio. Na última segunda-feira, porém, Abner publicou um longo texto nas redes sociais afirmando que a democracia “exige maturidade, equilíbrio e respeito às decisões populares, independentemente das convicções e preferências individuais”.

Outros pastores que apoiavam Flávio seguiram a mesma linha. O bispo JB Carvalho, responsável pela Comunidade das Nações, igreja de Brasília onde Flávio Bolsonaro foi batizado em 2024, se manifestou na última quarta-feira dizendo que “as eleições terminaram” e que “não há terceiro turno”. Sem se referir a um interlocutor específico, ele também orientou que “pare de profetizar o caos”. No mesmo dia, o candidato derrotado do PL publicou uma carta, após fugir do Brasil, na qual se declarou “verdadeiro presidente eleito” e, em uma segunda versão, “líder” do país.

Líder da Igreja Fonte da Vida e também aliado de Flávio, o apóstolo César Augusto afirmou, no dia seguinte à publicação da mensagem golpista, que não se arrependeu de seu voto, mas reprovou a reação do candidato do PL ao resultado: “Numa derrota, você fica extremamente decepcionado. Nesse momento, o conselheiro tem que ter a sensatez de ajudar, equilibrar. Acho que ele foi muito mal orientado. Não concordo, mas não vejo como um problema de ele se achar ditador, não. Isso foi no calor da derrota. As eleições ocorreram, segundo a Justiça, de maneira legal, então vira-se a chave para olhar o futuro do país.”

Outro que avaliou negativamente a postura de Flávio foi o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Em conversa reservada após a publicação da carta de Flávio, revelada pelo blog da colunista do GLOBO Malu Gaspar, ele referiu-se aos “filhos de Bolsonaro” como “jumentos”. Publicamente, porém, o pastor argumentou que concordava com a fuga de Flávio do país, por considerá-lo um “perseguido político”.

Ex-presidente da bancada evangélica na Câmara e pastor da Assembleia de Deus, o deputado Eli Borges (Republicanos-TO) também afirmou concordar com a saída de Flávio do país, mas disse não ter lido a carta. Outros pastores que apoiavam Flávio, como José Wellington Jr., líder da Convenção Geral das Assembleias de Deus (CGADB), também silenciaram sobre a mensagem golpista.

Segundo Borges, declarações como a do bispo Edir Macedo mostram que o “teor teológico” se sobrepõe a eventuais desavenças políticas: “Vejo ele (Macedo) como um teólogo querendo colocar as palavras de forma hierárquica, mas sem negar a essência do lema usado pelo bolsonarismo.”

Foto FlavioNa segunda-feira (02/11), em mais um momento simbólico da busca bolsonarista por apoio no meio evangélico, Flávio Bolsonaro recebeu afagos ao participar de um culto organizado por pastores brasileiros na Flórida (Estados Unidos). Ao lado do irmão Eduardo e das respectivas esposas, o senador escolheu a agenda religiosa como primeira aparição pública após deixar o Brasil. Flávio esteve em um culto do Ministério Celeiro. No culto, embora sem citar de forma explícita as eleições, o pastor José Maurício falou diretamente ao presidenciável derrotado do PL e lhe fez um afago: “Com Jesus você não perde. E, se perder, você está ganhando”, afirmou no culto.

(Fonte: O Globo)