O governo de Donald Trump revogou na terça-feira (04/08) o visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em uma nova escalada na crise entre os dois países. O país norte-americano justificou a medida pela demora do Brasil na resposta à concessão de aprovação diplomática do indicado do governo Trump a assumir a embaixada dos EUA em Brasília. A gestão Trump avalia novas medidas diplomáticas caso o governo brasileiro não autorize a nomeação do novo embaixador americano. O governo brasileiro repudiou a revogação do visto da embaixadora e rebateu as alegações, afirmando serem falsas.
Por enquanto, segundo os EUA, a embaixadora Maria Viotti não foi declarada ‘persona non grata’ e não foi expulsa do país. Com a medida atual, a embaixadora terá que solicitar um novo visto para entrar nos EUA, caso saia de lá: “O presidente Trump tem o direito de determinar quem representa o povo e os interesses dos Estados Unidos ao redor do mundo. O presidente Trump está formando, em toda a sua administração, uma equipe diplomática de primeira linha pautada pela política ‘America First’, sujeita ao aconselhamento e consentimento do Senado. Rejeitamos qualquer tentativa de países estrangeiros de interferir em nossos processos internos”, disse ainda um porta voz do Departamento de Estado.
O ato foi em resposta à demora do Brasil em autorizar o nome indicado pela Casa Branca para chefiar a embaixada dos EUA em Brasília, Daniel Perez. No rito diplomático, essa autorização é a concessão de um agrément. O governo brasileiro não tinha a intenção de bloquear a indicação de Perez. Contudo, os Estados Unidos anunciaram o nome do embaixador antes de solicitar formalmente o agrément ao Brasil, contrariando a praxe diplomática.
Além de adiar a aprovação de Perez, o Itamaraty recusou, em julho de 2026, pedidos de visto de Ruley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos, após o jornal The Washington Post ter publicado uma reportagem afirmando que a visita ao Brasil poderia ser utilizada para levantar suspeitas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
Barnes e Samson visitariam Brasília de 27 a 30 de julho para se reunirem com autoridades governamentais, líderes religiosos e representantes da sociedade civil para discutir a integridade eleitoral, a liberdade religiosa e a liberdade de expressão. Em nota, o governo brasileiro repudiou a decisão dos EUA e afirmou que as justificativas apresentadas pelo Departamento de Estado são falsas.
O Itamaraty disse que Washington rompeu a praxe diplomática ao anunciar o indicado para a embaixada em Brasília antes de solicitar formalmente o agrément e afirmou que não há prazo definido para a concessão da autorização.
O governo também acusou os EUA de adotar medidas hostis contra o Brasil e de tentar interferir nas eleições do país. “A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo. Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”, diz um trecho da nota.
Segundo o diplomata aposentado Rubens Barbosa, ex-embaixador em Londres e Washington, a decisão do governo Trump de revogar o visto é um “precedente perigoso” e marca a escalada da crise política entre os dois países. “Nunca houve isso [a revogação do visto da embaixadora] na história do Brasil na relação com os Estados Unidos”, disse à reportagem.
Ela afirma que foi um problema o governo americano ter ignorado o rito normal da diplomacia e ter anunciado seu novo embaixador para o Brasil sem antes ter solicitado o agrément ao governo brasileiro.
“Na praxe diplomática, a forma é importante. A primeira coisa que têm que fazer é pedir o agrément“, destaca. “E o agrément demora uns 30 dias. Então, é uma forçação um pouco de barra para antecipar a chegada do embaixador aqui”, continuou.
Oliver Stuenkel, professor associado de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), também vê a reação do governo Trump como algo desproporcional e que aumenta a pressão da Casa Branca sobre o Brasil. Ainda assim, não acredita que o governo Lula autorizará rapidamente que Daniel Perez assuma a embaixada dos EUA em Brasília. Com isso, ressalta, a embaixadora brasileira também deve continuar afastada do posto em Washington.
“É pouco provável que a embaixadora volte ao posto antes das eleições. Eu acho que o governo brasileiro, diante das declarações públicas de Trump, de Marco Rubio, prefere não ter um embaixador americano no país que possa buscar legitimar teorias conspiratórias sobre o sistema eleitoral brasileiro”, continuou.
Quem é Maria Luiza Ribeiro Viotti
De Belo Horizonte, Maria Viotti foi a primeira mulher a ocupar o cargo de embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, com aprovação em sessão plenária do Senado Federal em maio de 2023. Na ocasião, ela destacou que a agenda entre Brasil e Estados Unidos não se restringia apenas às relações econômicas, mas também incluía os planos político, o ambiental e a defesa dos direitos humanos.
“Hoje o Brasil e os Estados Unidos se reconhecem como duas grandes democracias que compartilham valores”, afirmou a diplomata.
Ela ingressou na carreira diplomática em 1976 e se graduou em Ciências Econômicas pela Associação de Ensino Unificado de Brasília em 1978, onde também concluiu os cursos de Aperfeiçoamento de Diplomatas (1982) e Altos Estudos (1995). É mestre em economia pela Universidade de Brasília.
Foi a representante permanente do Brasil junto à Organização das Nações Unidas, de 2007 a 2013. Nesse cargo, chefiou a Delegação do Brasil ao Conselho de Segurança da ONU e presidiu o Conselho de Segurança da ONU.
Também foi embaixadora do Brasil na Alemanha, de 2013 a 2016. Foi chefe de Gabinete do Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, durante o seu primeiro mandato, de 2017 a 2021.
Durante sua carreira, ocupou funções nas áreas de promoção comercial, organismos multilaterais e política bilateral.
Quem é Daniel Perez, indicado de Trump para ser embaixador dos EUA no Brasil
Daniel Pérez foi indicado por Donald Trump para assumir a embaixada americana no Brasil em 1º de junho. Seu nome ainda precisa ser aprovado pelo Senado americano antes de ser confirmado no cargo. Aos 38 anos, Perez preside desde 2024 a Câmara dos Representantes da Flórida, equivalente a uma Assembleia Legislativa no Brasil. Integrante do Partido Republicano, ele é aliado de Trump e, no ano passado, chegou a ser citado como possível candidato ao cargo de procurador-geral do estado.
Filho de imigrantes cubanos, Perez nasceu em Nova York e se mudou para a Flórida ainda criança, em 1993. Advogado, formou-se pela Faculdade de Direito da Loyola University New Orleans. Ele é casado e pai de três filhos. Perez foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 2017. Segundo informações divulgadas em seu site oficial, sua atuação parlamentar tem como foco temas ligados ao bem-estar infantil, saúde, fortalecimento das famílias, educação e integridade eleitoral.
Nas redes sociais, ele costuma adotar o slogan Make America Great Again (Maga), associado ao movimento político liderado por Donald Trump, que em português significa ‘Faça a América Grande Novamente’. Em diversas publicações, também manifesta apoio às principais pautas do presidente americano.
Em janeiro deste ano, Perez elogiou a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela que resultou na captura do ex-presidente Nicolás Maduro e de sua esposa. Em uma publicação no X, afirmou que Trump havia tomado “medidas decisivas para trazer paz e segurança ao nosso hemisfério” e para desferir “um grande golpe contra os cartéis de drogas que lucram com a morte e a destruição de vidas americanas”.
Caso tenha o nome aprovado pelo Senado, Perez será o primeiro embaixador dos Estados Unidos no Brasil desde a saída de Elizabeth Bagley, indicada pelo ex-presidente Joe Biden. O posto está vago desde janeiro de 2025, quando Trump retornou à Casa Branca.
Por que governo Lula negou vistos de funcionários da Casa Branca
O Itamaraty se recusou a conceder os vistos para Riley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado americano, no fim de julho. Os planos de sua viagem ao Brasil foram revelados pelo jornal The Washington Post. A agência Reuters informou que um porta-voz do governo americano afirmou que Barnes e Samson visitariam Brasília de 27 a 30 de julho para se reunirem com autoridades governamentais, líderes religiosos e representantes da sociedade civil para discutir a integridade eleitoral, a liberdade religiosa e a liberdade de expressão.
No entanto, para o Planalto, a visita dos dois funcionários poderia ser usada para levantar suspeitas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. O Departamento de Estado americano rejeitou a acusação e classificou as alegações como “mentira sem fundamento”. Samson é subsecretário adjunto de Estado no Departamento de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL).
Segundo o Washington Post, Samson viajou da África para a Europa, promovendo a linha política conservadora do presidente Trump e cultivando laços com grupos de direita. Riley Barnes ocupa o cargo de secretário-adjunto de Estado para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL) no Departamento de Estado dos EUA. Desde abril, tem também funções de embaixador extraordinário para a liberdade religiosa internacional.
O Departamento de Estado americano é comandado por Marco Rubio, que é um crítico contumaz do governo Lula e considerado um aliado da família Bolsonaro. A decisão veio dias depois de uma fala do candidato à Presidência e senador Flávio Bolsonaro, que fez acusações sobre as urnas eletrônicas já desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em evento com presença de diplomatas estrangeiros.
Brasil repudia revogação de visto de embaixadora nos EUA
O governo brasileiro repudiou a revogação do visto da embaixadora nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti. “O Governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo Departamento de Estado dos EUA de alterar o visto da embaixadora do Brasil em Washington. As duas justificativas apresentadas são falsas”.
Em nota divulgada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República, o governo afirmou que os EUA feriram a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas quando divulgaram o nome do seu indicado para assumir a embaixada no Brasil. Segundo o governo, o nome só poderia ser tornado público após a concessão da anuência do país anfitrião. O pedido norte-americano, acrescenta a nota, ainda está em análise.
“Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément”, destacou.
O governo do Brasil também citou a negativa dada a dois funcionários do governo dos Estados Unidos, e justificou a medida dizendo que a presença de ambos no país teria como objetivo colocar em dúvida o sistema eleitoral brasileiro. “Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para Presidente da República”.
A nota afirma que o episódio de terça-feira faz parte de uma “escalada deliberada de medidas hostis” contra o Brasil: “A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”.
O Palácio do Planalto lembrou que autoridades brasileiras, como funcionários do governo e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), ainda estão sob sanções da Lei Magnitsky, impostas pelo governo norte-americano em retaliação à condenação de Jair Bolsonaro por golpe de Estado. E ressaltou que o presidente Lula tem feito esforços pelo entendimento entre os dois países.
“O governo brasileiro não poupou esforços para resolver essas diferenças. O próprio presidente Lula, em sua visita a Washington em maio último, entre outros assuntos, solicitou ao presidente Trump o levantamento das sanções individuais”.