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Projeto de Lei protocolado na Câmara Municipal de Vitória promete provocar debate político e simbólico na capital capixaba. O vereador Armandinho Fontoura (PL) apresentou o Projeto de Lei nº 004/2026, que propõe a retirada do nome da atual Avenida Dante Michelini para Avenida Governador Gerson Camata, uma das vias mais conhecidas e movimentadas da cidade, que fica na orla de Camburi – corta os bairros Jardim da Penha, Camburi, Mata da Praia e Jardim Camburi. Camata foi assassinado a tiros no dia 16 de dezembro de 2018, na Praia do Canto.

A proposta vem após o assassinato de Dante Brito Michelini, o Dantinho, de 75 anos, um dos homens investigados pela morte da menina Araceli Cabrera Sanchez, de 8 anos, assassinada em 1973. O corpo de Dantinho foi encontrado decapitado e carbonizado em um sítio de sua propriedade em Meaípe, em Guarapari, na terça-feira (03/02).

A menina Araceli foi sequestrada, dopada, estuprada e assassinada. O corpo foi abandonado na ladeira que dá acesso ao Hospital Infantil, na Praia do Canto. Segundo Armandinho, a proposta revoga a Lei Municipal nº 1.701, de 1967, que batizou oficialmente a avenida, e busca inscrever na geografia urbana de Vitória a trajetória de um dos nomes mais influentes da política capixaba e nacional. Ex-vereador de Vitória, deputado estadual, deputado federal, governador do Espírito Santo e senador da República por três mandatos, Gerson Camata teve uma carreira que atravessou décadas da vida pública brasileira.

Armandinho diz que o neto do empresário Dante Michelini, que dá nome a via, “foi um dos assassinos da jovem Araceli em 1973”. Dantinho e Paulo Hilal foram, incialmente, condenados pelo Tribunal do Júri de Vitória. Mais tarde, o Tribunal de Justiça anulou a sentença e determinou novo júri. No segundo julgamento, eles foram absolvidos.

O processo foi arquivado devido à prescrição. E, depois de mais de 50 anos, ninguém foi punido. “Isso é uma chaga aberta na cidade de vitória e a mudança será um combate frontal contra estupradores e pedófilos”, diz Armandinho.

Segundo o vereador, a homenagem a Gerson Camata tem caráter histórico e educativo. “Uma avenida que carrega seu nome conta uma história, inspira futuras gerações e fortalece nosso vínculo com personalidades que moldaram nosso caminho coletivo”, disse. Para Armandinho, manter viva a memória de Camata é reconhecer uma liderança que representou o Espírito Santo “do município ao Senado Federal, sempre com destemor e paixão”.

O projeto também ressalta que Gerson Camata foi o primeiro governador eleito diretamente no Espírito Santo no período da redemocratização, exercendo mandato entre 1983 e 1986, além de ter representado o Estado no Senado por aproximadamente 24 anos.

Caso é “vergonha do Poder Judiciário”

Em entrevista ao Folha Vitória, o vereador Armandinho informou que a iniciativa se deu após manifestações populares sobre o sentimento de injustiça que envolve o caso Araceli:

“A sociedade capixaba está com isso entalado na garganta. A família Michelini era muito poderosa na época. Houve um julgamento. Utilizou-se de uma influência política à época e foi uma das maiores vergonhas do Poder Judiciário. Eles foram absolvidos. A sociedade nunca acreditou que houve justiça de verdade”, disse o vereador.

Armandinho ponderou que a homenagem foi feita ao avô de Dantinho, que não tem relação com o crime, mas que a mudança se justifica pelo fato de o neto ter o mesmo nome do avô.

“Nós estamos aqui propondo essa remoção do nome, que é o mesmo nome da pessoa que foi acusada no caso Araceli, lembrando que o caso Araceli foi um crime hediondo de um estupro seguido de morte, um caso que choca até hoje. Cinquenta e três anos e parece que não há justiça para Araceli. Com esse crime bárbaro que aconteceu, esse debate volta à tona”, frisou Armandinho.

Ao Folha Vitória, o vereador explicou que gostaria que a avenida passasse a ter o nome de Araceli, mas afirmou que legalmente não é possível porque já há um viaduto com o nome da menina, e não é possível haver dois logradouros com o mesmo nome na cidade.

Armandinho Fontoura defende o apoio dos colegas parlamentares. “Homenagear Gerson Camata não é apenas um tributo, é um ato de educação cívica e de reconhecimento a uma das figuras políticas mais relevantes da história capixaba”, afirmou.