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“Não sou candidato de Bolsonaro ou Lula em Vitória e rejeito extremos”. Palavras do então candidato a prefeito de Vitória pelo Repubicanos, Lorenzo  Pazolini, em entrevista à Folha de São Paulo, em 20 de novembro de 2020, nove dias antes de ser eleito no segundo turno contra João Coser (PT).

“Temos o sentimento de estar onde sempre estivemos. Temos o pré-candidato à Presidência bem estabelecido, bem fincado, Flávio Bolsonaro”. Palavras do mesmo Lorenzo Pazolini, em entrevista à Auriverde Brasil, uma rádio de Bauru (SP) cujo slogan é “A voz da direita”, no dia 13 de julho de 2026.

Flávio é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o mesmo renegado por Pazolini em 2020 e que se encontra em prisão domiciliar por ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal, (STF) pela acusação de tentativa de golpe de Estado, além de outros crimes. Flávio Bolsonaro se colocou como candidato do PL nas eleições para presidente da República agora em 2026.

Em 2020, Pazolini rejeitou a direita para conquistar a cidade de Vitória. Venceu com 58,50% (102.466 votos) dos votos válidos, enquanto seu adversário, o petista João Coser, alcançou 41,50% (72.684 votos). No auge da polarização política que dividiu o Brasil nas eleições municipais de 2020, as capitais brasileiras transformaram-se em verdadeiros tabuleiros de guerra de narrativas nacionais. Em Vitória, o cenário não foi diferente. Ao alcançar o segundo turno há seis anos, Pazolini adotou uma estratégia clara de distanciamento da figura do presidente Jair Bolsonaro.

O desafio de se desvincular do bolsonarismo

Embora sua trajetória como deputado estadual estivesse associada a pautas de segurança pública, pilar histórico do eleitorado conservador e bolsonarista, Pazolini percebeu que a nacionalização radical da campanha poderia afastar o eleitor de centro e moderado da capital capixaba. A postura do candidato gerou críticas imediatas de seus adversários, que o acusaram de “esconder” o bolsonarismo por puro cálculo eleitoral. O silêncio de Pazolini sobre uma possível proximidade com o núcleo bolsonarista provocou indagações sobre a sua verdadeira personalidade política, uma neutralidade que não agradou à direita da capital.

Mesmo sob pressão, Pazolini manteve a linha defensiva ao rejeitar rótulos ideológicos rígidos e as “guerras de extremos”. Ele buscou apresentar-se como uma alternativa técnica, neutra e voltada à gestão pública, focada em propostas pragmáticas de desenvolvimento urbano, saúde e combate à criminalidade em Vitória, longe dos embates das bolhas eleitorais.

O distanciamento estratégico que garantiu a vitória de Pazolini em 2020 cobrou o seu preço político quatro anos mais tarde. Ao buscar a reeleição em 2024, o prefeito de Vitória viu a direita conservadora local cobrar a fatura da neutralidade adotada no pleito anterior. Na época, o Partido Liberal (PL), sob a liderança de nomes influentes como o senador Magno Malta e o deputado federal Gilvan da Federal, oficializou um racha definitivo com a atual gestão municipal. A legenda lançou a candidatura do deputado estadual Capitão Assumção à Prefeitura da Capital e emitiu um posicionamento público contundente para demarcar território.

Através de notas oficiais e discursos de suas lideranças, o PL capixaba declarou categoricamente que o único pré-candidato bolsonarista em Vitória apoiado por Jair Bolsonaro era o Capitão Assumção. O partido fez questão de frisar que apenas o militar reformado representava a “direita de verdade” na capital, classificando Pazolini como um político de centro que tentava pegar carona no eleitorado conservador sem assumir um compromisso real com suas pautas ideológicas.

A rota do Palácio Anchieta e as novas costuras com o PL

A reeleição de Lorenzo Pazolini na Capital acabou por transformá-lo, naturalmente, no principal nome da oposição para a disputa pelo Governo do Espírito Santo. Com a renúncia ao cargo de prefeito para viabilizar sua pré-candidatura ao governo estadual, as articulações de bastidores entre o Republicanos e o PL entraram em ebulição, reabrindo velhas discussões e evidenciando a desconfiança do eleitorado conservador.

De um lado, a cúpula do Republicanos tenta costurar uma grande frente de direita, oferecendo espaço na chapa majoritária para atrair o PL, inclusive flertando com uma candidatura ao Senado para nomes ligados ao partido de Bolsonaro, como a filha do senador Magno Malta, Maguinha Malta.

Para a ala mais ruidosa da direita capixaba, no entanto, a desconfiança em relação a Pazolini permanece intacta. As lideranças mais alinhadas ao bolsonarismo não esquecem nem perdoam a calculada neutralidade do ex-prefeito nos momentos mais agudos de tensão política nacional. A leitura desse grupo é de que Pazolini é um político de bandeiras temporárias, que agora tenta usar a roupagem conservadora para angariar votos, mas que se omite quando o embate exige postura e posicionamento firmes.

A sombra de Paulo Hartung

Outro fator que alimenta a desconfiança da chamada direita raiz é a ligação de Lorenzo Pazolini com o grupo político do ex-governador Paulo Hartung, um entusiasta declarado do projeto do ex-prefeito rumo ao Palácio Anchieta. Aos olhos do bolsonarismo, o ex-governador representa o oposto do que defendem: Hartung é uma voz de centro, com trânsito nacional e historicamente crítica à gestão de Jair Bolsonaro.

A proximidade de Pazolini com figuras ligadas a Hartung, somada às movimentações de aproximação com o PSD de Gilberto Kassab, reforça a narrativa de seus detratores à direita de que ele é, essencialmente, um candidato do “establishment” capixaba travestido de outsider técnico. Assim, caso a aliança formal entre Republicanos e PL se confirme por pura conveniência partidária, o preço pode ser um racha irremediável na base de apoio.

Enquanto a cúpula desenha uma chapa unificada, o eleitor conservador mais convicto acompanha com profundo ceticismo a tentativa de alçar ao governo do Estado um líder que escolheu o silêncio e o recuo estratégico quando a direita mais precisou de sua voz.