Evandro Figueiredo Boldrine, ex-presidente da Companhia de Desenvolvimento, Turismo e Inovação de Vitória (CDTIV) e apontado como um dos coordenadores de milícias digitais que atuam na Prefeitura de Vitória, foi indiciado pela Polícia Federal pela acusação de cometer crime de falsidade ideológica eleitoral. Parceiro de Evandro em campanhas eleitorais, Fabrício Trevisani de Oliveira também foi indiciado pelo mesmo crime. O relatório final do inquérito, presidido pelo delegado federal Reinaldo Washington Lopes Vieira, aponta desvio sistemático de salários de servidoras comissionadas da Câmara Municipal de Vitória para custear despesas de campanha sem registro oficial.
Evandro ocupou a presidência da CDTIV em parte do primeiro mandato do ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos), de quem também foi subsecretário Municipal de Governo. Pazolini, que é delgado de Polícia Civil licenciado, renunciou ao cargo de prefeito no início de abril de 2026 para disputar a eleição de governador deste ano. Mesmo sem cargo na Prefeitura de Vitória, Evandro é reconhecido no meio político como o homem que comandava o chamado Gabinete do Ódio que atuava no Executivo Municipal na gestão de Pazolini.
O Inquérito Policial na PF foi instaurado por requisição do Ministério Público Eleitoral da 1ª Zona de Vitória, com o objetivo de apurar possível prática de falsidade ideológica eleitoral, prevista no art. 350 do Código Eleitoral (Lei n° 4.737/1965), em tese cometida por Evandro Figueiredo, que foi candidato a vereador em Vitória pelo Partido Progressista em 2024 – ele não foi eleito e hoje está no Partido Republicanos. As investigações partem de declaração espontânea prestada por Andreza Cristina Freire Lopes, que na época era servidora em cargo comissionado no Gabinete da Presidência da Câmara de Vereadores da Capital capixaba. Impossibilitada de continuar em silêncio diante dos fatos criminosos, Andreza buscou o Ministério Público Estadual para relatar as circunstâncias que envolveram sua nomeação, as pressões sofridas e a subsequente exoneração.
Por conta dos mesmos fatos que levaram ao indiciamento, Evandro e Fabrício são investigados também pela Delegacia de Combate à Corrupção (Deccor) da Polícia Civil, que já está quase concluindo o Inquérito Policial e deverá também indiciar a dupla pela acusação de “rachadinha”.
Assim que foi indiciado pela Polícia Federal, Evandro perdeu a “boquinha” que tinha na Assembleia Legislativa. Ele estava lotado no gabinete do deputado Alcântaro Filho (Republicanos), no cargo de Técnico Sênior de Gabinete e Representação Parlamentar Nível II.
De acordo com a PF, Evandro, que é reconhecido como cabo eleitoral do ex-prefeito Lorenzo Pazolini –, teria usado sua influência política para indicar pessoas a cargos de confiança na Câmara de Vereadores de Vitória. Em troca da nomeação, os servidores seriam obrigados a devolver mensalmente R$ 1,5 mil de seus salários para financiar a campanha. Evandro terminou a eleição com 1.860 votos, na suplência do partido. O crime de falsidade ideológica eleitoral consiste em omitir ou inserir declaração falsa em documento público ou particular para fins eleitorais. A pena prevista é de até cinco anos de prisão, além de multa.
Ao Gazeta Online, Evandro Figueiredo alegou que “o Inquérito Policial é fruto de uma denúncia anônima, afirmando que indiquei uma pessoa em um gabinete de um vereador, que foi meu concorrente nas eleições”. Todavia, o caso veio à tona após denúncia espontânea de uma ex-servidora indicada por Evandro para o cargo. À polícia, ela afirmou que, em um período em que estava desempregada, buscou a ajuda de Evandro para conseguir um emprego. Por intermédio dele, foi inicialmente alocada em entidades ligadas à Prefeitura de Vitória e, em julho de 2024, nomeada para o cargo de secretária parlamentar.
Com remuneração mensal de R$ 6.103,00 entre salário e benefícios, a funcionária teria sido obrigada por uma mulher, que agiria a mando de Evandro, a realizar uma transferência via Pix de R$ 1.500,00 para ela. Em mensagens trocadas entre elas e obtidas pela Polícia Federal, a mulher afirma: “Ele combinou 1.500 reais”, referindo-se ao então candidato a vereador.
No mesmo dia em que a servidora que denunciou o suposto esquema foi exonerada, outra mulher foi nomeada para o cargo. A funcionária que assumiu o posto, também por indicação de Evandro, era parente do outro indiciado, Fabrício Trevisani de Oliveira, segundo a Polícia Federal.
O relatório do inquérito aponta que, diferentemente da antecessora, a nova servidora teria repassado parte de seu salário. Extratos bancários analisados indicam que, após receber seus vencimentos, ela fez transferências de R$ 1,5 mil para o irmão, apontado como operador do suposto esquema.
Dinheiro distribuído entre colaboradores de campanha
A investigação indica que Fabrício recebia os valores — por Pix ou em espécie — e os repassava em dinheiro vivo a colaboradores da campanha de Evandro. Uma dessas colaboradoras afirmou em depoimento ter recebido pagamentos por serviços como “boca de urna”.
A PF destaca que mensagens trocadas via WhatsApp mostram que essa mulher coordenava ações, como envio de chaves Pix e pedidos de material de campanha. O trabalho teria contribuído para cerca de 300 votos dos 1.860 obtidos pelo candidato. Para a Polícia Federal, o depoimento foi relevante por indicar que o dinheiro retirado dos salários das servidoras era convertido em espécie e usado para pagar cabos eleitorais de forma informal.
“Rachadinha” é apurada pela Polícia Civil
O relatório da Polícia Federal também cita a atuação da Polícia Civil, que conduz uma investigação paralela (Inquérito Policial nº 008/2025), por meio da Delegacia de Combate à Corrupção (Deccor). No âmbito federal, a apuração se limitou ao crime de falsidade ideológica eleitoral. Já as suspeitas de “rachadinha” — como a devolução de parte dos salários, que pode configurar peculato, concussão ou corrupção passiva — não foram investigadas pela PF, por não serem de sua atribuição. Esses fatos estão sob responsabilidade da Polícia Civil e do Ministério Público Estadual.
Evandro foi exonerado do cargo que ocupava na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) no dia 17 de abril. Ele ocupava um cargo comissionado no gabinete do deputado Alcântaro Filho desde outubro do ano passado, com salário de R$ 7.941,00.



