Quando perguntam ao ex-governador Renato Casagrande (PSB) se ele vai disputar o governo do Estado nas eleições de outubro de 2018, ele tem a resposta pronta: “Ainda não é o momento para decidir”. E completa: “O mais importante neste momento é debater projetos para voltarmos a viabilizar o Espírito Santo”.
Desde abril de 2017, Renato Casagrande tem percorrido o Estado. Já esteve em 51 municípios, apresentando e debatendo programas. “A política hoje é muito personalizada”, diz ele, que tem conversado com lideranças políticas, comunitárias, empresariais e religiosas – enfim, com toda a sociedade civil – por onde passa.
Casagrande é um dos raros políticos capixabas dono de uma agenda própria. A maioria dos políticos do Espírito Santo começa a tratar agenda a partir de decisões do governador Paulo Hartung (PMDB), que, geralmente, são tomadas aos “45 minutos do segundo tempo” como forma de manipular o mercado.
“Eu sempre tive agenda própria. Foi assim em 2006, quando me lancei na disputa ao Senado e ganhei. Foi assim em 2010, quando me lancei ao governo do Estado e o pré-candidato do então governador (o mesmo Paulo Hartung) era o hoje senador Ricardo Ferraço. Sempre tive minha agenda própria porque sempre tive programas e projetos”, avisa Renato Casagrande, nesta entrevista exclusiva concedida ao Blog do Elimar Côrtes.
Nas visitas que pretende continuar fazendo aos 78 municípios capixabas, pelo menos até maio deste ano, Casagrande busca debater projetos de desenvolvimento capixaba e de governança, que, segundo ele, têm apoio em quatro pilares: ética e transparência; democracia de alta intensidade; responsabilidade fiscal; e desenvolvimento regional. O próprio ex-governador faz questão de pontuar cada um dos pilares:
“1) A ética, um dos pilares, precisa ter na prática 100% de transparência, para garantir que os recursos públicos serão bem usados em prol da população. É preciso informar com exatidão, por meio de todas as redes sociais disponíveis, para onde vai cada centavo.
2) O segundo pilar é uma administração democrática. Hoje em dia a tecnologia permite ao gestor público se comunicar com a população. Um exemplo de uma prática nada democrática do atual governo ficou marcado no episódio das esposas e familiares dos policiais militares. Durante o movimento (aquartelamento) de fevereiro de 2017, o governo agiu com radicalismo e arrogância. Agiu sem democracia.
3) Também tenho falado da responsabilidade fiscal, como outro pilar de governança. Um administrador precisa usar bem os recursos públicos; precisa saber onde gastar o dinheiro público; precisa entender quais são as prioridades, principalmente, das áreas sociais vulneráveis. É preciso, dentro da responsabilidade fiscal, resgatar a credibilidade da segurança pública; é preciso voltar a investir na saúde pública, com a retomada de repasses de verbas para entidades filantrópicas que mantêm hospitais para atendimento às populações carentes; é preciso, mesmo com responsabilidade fiscal, resgatar a educação no interior do Estado, onde diversas escolas públicas foram fechadas nos últimos três anos. O dinheiro público precisa ser investido na proteção social.
4) E o quarto pilar é o Poder Público levar desenvolvimento para todos os municípios e regiões do Estado. Por exemplo: onde não há Ifes (Instituto Tecnológico Federal), o Estado tem de abrir Escolas Técnicas. É necessário levar unidades de saúde para as demais nove microrregiões do Estado e estimular projetos que proporcionem a instalação de empresas âncoras nas regiões. Também é preciso construir unidades das Polícias Civil e Militar em todas as regiões, como fizemos com a instalação das Delegacias Regionais”.
Renato Casagrande lembra que, durante seu governo (2011/2014), já havia iniciado o desenvolvimento regional, com a instalação de fábricas em Linhares, São Mateus e Pinheiros; a criação do Fundo de Desenvolvimento do Sul do Estado; a construção e reforma de rodovias estaduais; e a construção dos Centros Médicos Especializados nos municípios de Nova Venécia, Linhares, Santa Teresa, Domingos Martins e Guaçuí.
“Deixamos todos esses Centros Médicos prontos no final de 2014. Mas o atual governo inaugurou somente o de Nova Venécia, mudando, inclusive, o seu nome. O projeto passou a se chamar Rede Cuidar, mas são os mesmos Centros Médicos Especializados que construímos”, ressalta Casagrande.
O ex-governador comenta também sobre a informação dada por Paulo Hartung, na última terça-feira (02/01), de que o governo teria economizado R$ 1,1 bilhão nas despesas do Estado entre os anos de 2015 e 2017. Hartung garantiu, inclusive, que “a economia realizada por conta dos cortes de gastos não prejudicou na contraprestação de serviços à sociedade”.
Para Renato Casagrande, o dinheiro “economizado” pelo governo foi responsável, por exemplo, pela morte de centenas de pessoas. A “economia” de mais de R$ 1 bilhão por parte do governo Hartung desacelerou a economia, criou desempregos, fome, medo e morte:
“Quantos irmãos capixabas perderam a vida nesses três últimos anos numa abordagem feita por bandidos? Quantas pessoas morreram por falta de atendimento em hospitais? Quantas crianças, adolescentes e jovens deixaram de estudar por falta de vagas nas escolas ou por falta de escolas em suas cidades?”, questiona Casagrande.
Ele disse mais: “É muito ruim ver o governo do Estado com práticas muito ultrapassadas. Foi ruim para a segurança pública, saúde e educação ver o governo juntar dinheiro em 2015, 2016 e 2017 para gastar tudo em 2018, logo num ano eleitoral. Ao juntar esse dinheiro, que o governo diz que juntou, e deixar de investir na segurança pública, na saúde e na educação, o governo permitiu o aumento da violência; permitiu a falta de leitos hospitalares; permitiu o fechamento de escolas”.
Para Renato Casagrande, “essa política antiga, de juntar recursos públicos e depois jorrar dinheiro em ano eleitoral, causou muito prejuízo para a população capixaba”. O ex-governador acredita que, da mesma forma que o governo Hartung promoveu cortes sem critérios, vai gastar os recursos sem critérios:
“Linearmente, sem critério, o governo cortou despesas na segurança pública, saúde, educação, assistência social. Não qualificou o corte é não atuou na ponta da eficiência de gestão. Estabeleceu cortes por decreto e o resultado foram viaturas paradas, escolas fechadas e diminuição de leitos hospitalares. Mas o marketing continuou funcionando com o dinheiro público, tentando enganar as pessoas com assessoria nacional e muita propaganda nos meios de comunicação”, frisou Casagrande.
“A população agora sofre as consequências de uma prática ultrapassada, da velha política: juntar dinheiro três anos para gastar, de novo sem critério, em ano eleitoral. Quando falo da falta de critérios para os cortes é porque o governo paralisou obras importantes, contribuindo, assim, para o desemprego, para a recessão, para a fome. Agora, ele vai apressar a aplicação dos recursos. Os cortes não poderiam ter atingido áreas essenciais, como a segurança pública, por exemplo. Nunca vimos a nossa polícia tão desanimada como agora, sem apoio e sem prestígio. Os hospitais estão sem aportes financeiros”.
Casagrande, responsável por um dos mais eficientes programas sobre segurança pública no País, que foi o Estado Presente, afirma que, “infelizmente os primeiros resultados na área social aqui no Espírito Santo são negativos. Por exemplo, na segurança pública o número de homicídios em 2017 foi quase 20% maior que em 2016. Primeiro ano que isso acontece desde a implantação do programa Estado Presente em 2011, primeiro ano do período em que governei o Estado. Ainda não conhecemos os dados de furto, roubo e latrocínio. Certamente muito superiores aos números dos anos anteriores”.
Segundo ele, “a insegurança aumentou e junto com a insegurança veio a constatação de que as pessoas não têm mais o direito de ir e vir. Não pode com tranquilidade ir à Igreja, a um restaurante, a uma confraternização. Estão a todo momento sobressaltados”.
O ex-governador Casagrande tem sido uma voz quase que única a tentar alertar à sociedade e ao governo sobre os riscos impostos, sobretudo, à segurança pública, por falta de investimento e de diálogo com as Polícias Civil e Militar:
“Não foi por falta de alerta ao governo do Estado. Desde 2015 estamos chamando atenção de que a falta de diálogo e o corte indiscriminado de recursos das áreas essenciais levariam a essa realidade”.
Para Casagrande, essa prática “da velha política” precisa ser observada e cobrada pelos capixabas. “O governo promoveu uma tentativa de segurar os recursos por três anos para distribuir ‘benesses’ em um ano. Os servidores só voltaram a ter abono agora no final de 2017, véspera de ano eleitoral. Só terão reajuste salarial em 2018, ano de eleição”.
Renato Casagrande defende que o novo momento político que o Brasil e, em especial, o Espírito Santo, merece uma nova reflexão: “Precisamos resgatar a democracia em nosso Estado; resgatar o diálogo com as instituições. Neste ano de 2018, tenho certeza que o resgate será muito maior”.
Quando fala de ética e ajuste fiscal, Casagrande lembra que o atual governo Hartung “tentou construir a farsa de um Estado desorganizado”. Segundo o ex-governador, agora a verdade começa a aparecer. “Foram três anos de atraso no Espírito Santo. Durante esse período, o atual governo tentou me destruir e destruir o que meu governo realizou em prol do povo capixaba.
Indagado se uma “farsa” ou mentira contada por gestor público não pode ser alvo de punição no âmbito do Judiciário, Renato Casagrande diz que não. Porém, ressalva: “Só quem pode punir um governante que mente é a população. É na hora do voto”.
Ele frisa que o governo usou o primeiro dia útil do ano para anunciar ter economizado R$ 1,1 bilhão em corte de gastos com custeio. Mas, ressalta Casagrande, que a história pode não ser assim, pois, especialistas em contas públicas ouvidos pelo jornal A Gazeta questionaram a metodologia usada pela equipe de Paulo Hartung. Pelos métodos verdadeiros, a economia teria sido de
R$ 396 milhões em três anos. “De todo modo, o corte que o governo fez prejudicou a população”, ressalta Casagrande.
O debate sucessório no Espírito Santo está posto. De acordo com Renato Casagrande, em maio ele apresentará à população os resultados dos debates que vem promovendo nos 78 municípios capixabas. Vai ser a partir daí que o grupo que ele representa – do qual fazem parte políticos importantes, como a senadora Rose de Freitas (PMDB) – definirá quem vai ser o (ou a) candidato (a) ao governo do Estado.
“Como já disse, o fundamental é discutir com a população os projetos. Temos o costume de personalizar a política. Mas penso que o importante é discutir propostas”, finalizou Renato Casagrande.