O Ciodes, prontamente, mandou para o local uma guarnição do 6° Batalhão da Polícia Militar (Serra). Os policiais foram para a Rua Laranja da Terra, mas alegam nada ter encontrado de anormal, nem o número 99. Também pudera: Rosane estava sendo agredida na casa ao lado, no número 89. Como robôs, os policiais deram meia volta, entraram na viatura (se é que eles saíram do carro) e foram embora do bairro.
Uma hora depois, o Ciodes recebe outro telefonema. Desta vez para avisar que a mulher que havia denunciado o espancamento acabara de ser assassinada, com duas facadas na nuca. O assassino era o mesmo homem que a agredia minutos antes. Voltaram para o bairro, só para recolher o corpo, já estirado no meio da rua, os mesmos policiais que estiveram no local uma hora antes.
Os jornais Notícia Agora e A Tribuna “culpam” o erro de Rosane por sua morte. Informam os dois jornais – com base, é claro, na justificativa do Ciodes e não em suas próprias apurações jornalísticas – que a mulher somente não foi salva pelos policiais militares porque forneceu o número errado de sua casa.
Nem precisava do Ciodes dar essa justificativa para explicar a morte de Rosane, porque ninguém em sã consciência vai afirmar que os policiais militares que foram à rua onde ocorreu a tragédia são culpados pela morte de Rosane.
Ficam, entretanto, algumas indagações: se esses mesmo policiais fossem um pouco mais comprometidos com sua função, o assassinato de Rosane teria sido evitado?
E se eles tivessem levantado a bunda do banco da viatura, mesmo de madrugada, e saído de casa em casa da Rua Laranja da Terra e perguntado a cada morador onde residia Rosane Dias da Silva, poderiam ter evitado a morte da mulher?
As Polícias Militares de todo o Brasil precisam urgentemente de uma mudança. Não há mais espaço para tanta burocracia dentro dessas corporações. Seus integrantes, sejam eles oficiais ou praças, precisam ser desenrolados.
Não é mais concebível que a mesma Polícia Militar que enfrenta com balas de borracha e spray de pimenta jovens estudantes que fecham avenidas em protesto contra aumento de passagem de ônibus seja a mesma polícia que não procura direito a casa onde uma mulher está sendo espancada pelo marido.
Não é admissível que a mesma polícia que enfrenta com balas de borracha e spray de pimenta pobres moradores que invadem uma propriedade particular, cumprindo com perfeição um mandado de despejo dado pela Justiça, não consegue enxergar outra casa a não ser a de número 99 numa rua escura e sem calçamento, passado pelo Ciodes?
Não é mais possível que a mesma Polícia Militar que tem como principal missão salvar vidas permita que seus integrantes voltem para a base sem solucionar ou encontrar o alvo pela qual foram designados?
Por ironia do destino, horas depois do assassinato de Rosane, o Tribunal de Justiça implantou a Coordenadoria Estadual das Mulheres em Situação de Violência Doméstica e Familiar, que tem o objetivo reduzir os altos índices de violência contra mulheres no Espírito Santo.
Somente em 2011, 133 mulheres foram assassinadas pelos maridos no Estado. Em 2011, a Polícia Civil abriu mais de 3.360 inquéritos contra maridos agressores.
Mas, quantas Rosanes ainda serão assassinadas até que cada órgão de segurança pública assuma a sua responsabilidade e afaste de vez a burocracia e o descaso?