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O jornal Folha S.Paulo errou em reportagem publicada na segunda-feira (02/03) ao informar sobre o motivo que fez o governador Renato Casagrande (PSB) exonerar o delegado Romualdo Gianordoli Neto do cargo de subsecretário de Inteligência da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social. A Folha SP diz que o governador exonerou o delegado após investigação detectar suspeitas sobre o desembargador federal Macário Júdice no Espírito Santo. O magistrado está preso preventivamente sob suspeita de vazar informações de investigação ao presidente afastado da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), Rodrigo Bacellar (União). Bacellar é ligado ao ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Jóias, que, por sua vez, é integrante do Comando Vermelho (CV).

Ao construir uma narrativa –  provavelmente repassada pelo próprio Romualdo Gionadorli – a partir do título ‘Governador do ES exonerou delegado após investigação detectar suspeitas sobre juiz federal’, o jornal paulista faz outras ilações como forma de constranger as autoridades capixabas. Gianordoli foi exonerado por diversos motivos, dentre os quais se destacam a “criação de um centro paralelo de investigação” e pelo fato de ter perdido a confiança de seus  superiores nele.

Para entender a falsa notícia publicada pela Folha SP e outros veículos de comunicação do País e do próprio Espírito Santo – que embarcaram na farsa do jornal paulista sem fazer a devida apuração – é preciso contextualizar o caso. Até 2024, Romualdo Gioanordoli comandava o Centro de Investigação de Análise Telemática (Ciat) da Polícia Civil, juntamente com outros delegados. A unidade é vinculada diretamente ao Gabinete do Delegado-Geral da Instituição, que hoje é ocupado pelo delegado José Darcy Arruda.

Em 5 de setembro de 2024, Romualdo foi nomeado, pelo governador Renato Casagrande, para o cargo de subsecretário de Inteligência da Sesp. Trata-se de um órgão que tem a missão de fornecer informações para as Polícias Civil, Militar e Penal, Guardas Municipais, Corpo de Bombeiros e para o sistema socioeducativo.

Por conta dessa função, o secretário de Estado da Segurança Pública, Leonardo Damasceno, permitiu que o seu sub de Inteligência apoiasse os colegas do Ciat com informações, conforme estabelece as regras do cargo. No entanto, o delegado Romualdo não conseguiu se desagarrar do Ciat (como prova de sua sede no Ciat, Romualdo aparece na foto com “farda” da Polícia Civil, mesmo exercendo um cargo administrativo de subsecretário de Inteligência).  Ele fazia questão de interferir no Ciat, chegando a causar constrangimento ao então chefe da unidade, delegado Alan Moreno de Andrade.

Fontes ouvidas pelo Blog do Elimar Côrtes informaram que Romualdo fez com que Alan Moreno ficasse totalmente dependente e ligado  emocionalmente a ele. O então subsecretário de Inteligência impedia, inclusive, que o chefe do Ciat se reportasse ao delegado-geral, Darcy Arruda.

Criou-se aí uma crise interna, pois a “loucura” era tanta que, em determinado momento de 2025, Romualdo Gianordoli foi à Chefatura de Polícia Civil e se reuniu com o delegado-geral. No encontro, o subsecretário de Inteligência propôs a permanência do delegado Alan Moreno na coordenadoria do Ciat e, em contrapartida, ele (Romualdo) se comprometia em dar total acesso a José Darcy Arruda ao Ciat.

Entornou o caldo de vez. Renato Casagrande, então, determinou ao secretário Damasceno que resolvesse o impasse provocado pela falta de respeito de um delegado com o chefe da instituição. Como não foi possível, em 23 de outubro de 2025 o governador exonerou Romualdo Gianordoli do cargo de subsecretário. O impasse, no entanto, continuou, com Romualdo sempre provocando o DG Darcy Arruda. Até que, em 17 de dezembro de 2025, Casagrande o demitiu também do cargo burocrático que ocupava na Sesp e o fez retornar à Polícia Civil.

Um ano depois da ida de Romualdo Gianordoli para a Subsecretaria de Inteligência da Sesp, o Ciat começou a investigar bandidos que integravam o “braço financeiro” da facção Primeiro Comando de Vitória. E um dos alvos foi um empresário conhecido como Adilson Ferreira. A Folha SP informa que os “diálogos suspeitos de Macário encontrados pela Polícia Civil do Espírito Santo foram obtidos no curso da Operação Baest, deflagrada em maio de 2025”.

O celular de Adilson, acrescenta a Folha SP, “continha conversas com Macário Júdice”. Segundo a Folha SP, relatório final da operação foi concluído em 24 de setembro de 2025 com o indiciamento de Adilson Ferreira sob suspeita de ser um dos responsáveis pela lavagem de dinheiro da facção. Aí entra a fake news da Folha SP: “A partir dessa data, os quatro delegados [incluindo Romualdo] que assinaram o documento foram retirados de seus cargos.”

Na condição de subsecretário de Inteligência e por conta do apoio operacional ao Ciat, Romualdo Gianordoli também assinou o relatório da Operação Baest. No entanto, ele e seus colegas deixaram de incluir o conteúdo das conversas do desembargador Macário Júdice com o empresário Adilson no relatório final do procedimento. Ou seja, o conhecimento de parte da investigação ficou restrito da equipe de investigação.

Somente em fevereiro de 2026, ao prestar depoimento na Corregedoria de Polícia Civil, onde responde a diversas acusações, o delegado Romualdo Gianordoli informou que o celular do empresário Adilson continha conversas com o desembargador Macário. Lembrando que, até então, o caso era do conhecimento somente do Romualdo e da equipe do Ciat. ⁠Ao receber o conteúdo do depoimento do delegado Romualdo à Corregedoria, o secretário da Segurança Pública, Leonardo Damasceno, encaminhou a Polícia Civil para abertura de investigação, bem como ao Ministério Público Estadual.

Na coletiva de imprensa concedida na segunda-feira, o delegado-geral José Darcy Arruda afirmou que o delegado Romualdo Gianordoli Neto criou um Centro de Investigação de Análise Telemática (Ciat) “paralelo” para produzir relatórios com conteúdos que a alta cúpula da Segurança no Estado não tinha conhecimento. Da mesma coletiva, participaram os secretários da Segurança Pública e Defesa Social, Leonardo Damasceno, e de Economia e Planejamento e coordenador do Programa Estado Presente em Defesa da Vida, Álvaro Duboc:

“Ele criou um Ciat paralelo. Agora a Corregedoria quer saber dele. Por que fez isso por fora? O que o levou a fazer isso? Qual era a intenção? Qual era o objetivo? Por que não pediu ao Ministério Público e ao Poder Judiciário uma autorização para compartilhar as informações? Por que ficou de maio a setembro com esse material escondido? É isso o que queremos saber dele”, declarou Arruda.