Um dia após convocar a Seleção Brasileira pela quarta vez, o italiano Carlo Ancelotti ouviu críticas a técnicos estrangeiros no País. As falas foram proferidas por Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira, na terça-feira (04/11), no 2º Fórum Brasileiro dos Treinadores de Futebol (FBTF), na sede da CBF, no Rio. Leão e Oswaldo não se intimidaram com a presença de Ancelotti no palco e desferiram ataques à presença de treinadores de outros países no futebol nacional, proferindo discursos considerados xenofóbicos, motivados por inveja.
“Eu sempre disse que não gosto de técnicos estrangeiros no meu País e não mudo a opinião”, disse Leão. “Antes eu falava que não suportaria treinadores (estrangeiros). Mas, tenho que ser inteligente o suficiente para dizer que isso tudo tem um culpado: Nós, treinadores, somos os culpados da invasão de outros treinadores que não têm nada a ver com isso”, completou.
Emerson Leão, de 76 anos, é considerado um dos melhores goleiros que o Brasil já teve, tendo muita identificação com Palmeiras, clube que defendeu em incríveis 621 jogos. Pela seleção brasileira, disputou as Copas de 1970, 1974, 1978 e 1986.
Foi treinador da equipe nacional em um curto período entre outubro de 2000 e junho de 2001. Foi sucedido por Luiz Felipe Scolari, que alcançou o pentacampeonato em 2002, no Mundial da Coreia do Sul e do Japão. O ex-goleiro está fora do futebol profissional como treinador desde 2012, quando comandou o São Caetano. Esteve brevemente no cargo de consultor da Portuguesa, em 2017.
Em tom ainda mais efusivo, Oswaldo de Oliveira desejou que a Seleção volte a ser comandada por um técnico brasileiro. “Tomara, nós cheguemos a ter os treinadores brasileiros brilhando, dirigindo clubes. É claro, Ancelotti, depois de ser campeão tomara que volte um brasileiro no comando”. A fala despertou um leve sorriso no italiano.
Oswaldo, de 74 anos, está sem clube desde 2019. Viveu seu auge no início dos anos 2000, quando esteve cotado para assumir a Seleção Brasileira após grandes trabalhos no Corinthians (com conquistar do Estadual, Brasileirão e Mundial de Clubes) e no São Paulo. Fez longa carreira no futebol japonês, erguendo taças no Kashima Antlers, entre 2007 e 2011.
E mais: Oswaldo trabalhou 23 temporadas como preparador físico e técnico em clubes do Catar, Emirados Árabes, Jamaica e Japão. E seu último trabalho no Brasil foi no Fluminense, em 2019. Leão também esteve no Catar e passou cinco temporadas no futebol japonês. Última passagem dele como treinador de um clube brasileiro foi o São Caetano, em 2012.
Quem participou do Fórum na CBF?
O FBTF discute o futebol brasileiro na perspectiva dos técnicos. Além de Ancelotti, Leão e Oswaldo de Oliveira, participaram do evento Vagner Mancini, técnico do Red Bull Bragantino e presidente da FBTF, Rodrigo Caetano, coordenador executivo geral de seleções masculinas da CBF, Arthur Elias, técnico da seleção feminina, Geninho, campeão brasileiro em 2001 com o Athletico-PR e paulista em 2003 com o Corinthians, Fernando Diniz, do Fluminense, Ney Franco, campeão sul-americano com o São Paulo em 2012, entre outros brasileiros.
Carlo Ancelotti falou no início do evento. “A força do treinador brasileiro, tenho que ser honesto, não é tão forte. Uma das primeiras coisas que escutei e não entendo é porque o treinador brasileiro não pode treinar na Europa. Significa que a figura é um pouco fraca. É importante trabalhar juntos para que a geração seja forte”, refletiu Ancelotti.
Entenda a origem da polêmica com treinadores estrangeiros
Entre 2015 e 2016 surgiu um debate sobre uma nova geração de treinadores no Brasil que substituiria uma era tomada por “medalhões”. À época, houve discussões sobre etarismo e se os técnicos consagrados estavam “ultrapassados”. Nesta leva de novos técnicos, estavam incluídos Roger Machado, Fábio Carille, Jair Ventura, Zé Ricardo, Eduardo Baptista, Milton Mendes, Marquinhos Santos, Jorginho e Dorival Júnior eram os mais promissores. No entanto, esses nomes não conseguiram títulos de expressão que os mantivessem no auge por um longo período.
Diante das grandes campanhas feitas por Flamengo e Palmeiras, entre 2019 e 2021, no Brasileirão e na Libertadores (com os portugueses Jorge Jesus e Abel Ferreira, respectivamente), os ares mudaram e os treinadores estrangeiros assumiram protagonismo no País. Os clubes da Série A passaram a procurar especialmente técnicos de Portugal e da Argentina, resultando na perda de espaço dos treinadores brasileiros no futebol nacional.
Na Seleção Brasileira, após a saída de Tite, o cargo de treinador foi uma incógnita. Ramon Menezes e Fernando Diniz assumiram interinamente, na expectativa de que Ancelotti assinasse no começo de 2024.
O italiano permaneceu no Real Madrid, e a CBF anunciou Dorival Júnior. Com resultados ruins, o técnico foi demitido, e, enfim, Ancelotti foi contratado, com expectativa de que apenas um estrangeiro conseguiria dar o que faltava à Seleção. Desde que ele assumiu, são seis jogos no comando do Brasil. Ancelotti soma três vitórias, um empate e duas derrotas até aqui.



