Os senadores Fabiano Contarato (PT) e Marcos do Val (Podemos) vão encontrar muitas dificuldades para serem reeleitos nas eleições de outubro de 2026. Não importa o resultado das pesquisas feitas até o momento. Os dois são “acusados” de “traírem” seus eleitores.
Delegado de Polícia Civil aposentado, Fabiano Contarato foi eleito com 1.117.039 votos no pleito de 2018. Suas atitudes bem antes daquela campanha eleitoral levaram os eleitores a acreditarem que ele era um político da direita, defensor dos “bons costumes”, um autêntico bolsonarista.
Para entender o motivo que levou os eleitores a acreditarem nessa premissa é preciso voltar ao ano de 2014. Naquela época, Fabiano Contarato era o idolatrado delegado-chefe da Delegacia de Delitos de Trânsito. Era conhecido como ‘Xerife do Trânsito’, um delegado com fama de combater com rigor os crimes cometidos por maus motoristas.
O delegado Fabiano tinha tanto zelo na condução de suas atividades policiais que, quando algum delegado de Plantão da Polícia Civil autuava motoristas que se envolviam em acidentes fatais por homicídio culposo – sem intenção de matar – e os soltava mediante pagamento ou não de fiança, no dia seguinte ele avocava o procedimento do Auto de Prisão em Flagrante e instaurava Inquérito Policial para levar os condutores a responder por um delito mais grave: homicídio doloso – quando tem intenção. E a atitude do ‘Xerife do Trânsito’ era manchete nos jornais e aplaudida pela imprensa.
Com esse perfil de ‘xerife linha-dura’, ele se lançou candidato ao Senado em 2014 pelo antigo Partido da República (PR), que, mais tarde, se transformou no Partido Liberal (PL). E de quem é o PL? Ora, é do ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos Flávio (senador/Rio), Eduardo (deputado federal por São Paulo e ‘foragido’ nos Estados Unidos), Carlos (vereador no Rio) e Renan (vereador no município de Balneário Camboriú, Santa Catarina). O PR também abrigava o senador Magno Malta, que hoje está no PL.
Foi, aliás, Magno quem levou o até então amigo do peito Fabiano Contarato para o PR e o lançou candidato ao Senado, em 2014. O delegado topou a parada, até que, no dia 14 de julho de 2014, ele desistiu da disputa. Fabiano Contarato estava na chapa liderada pelo então governador Renato Casagrande (PSB), que se encontrava em seu primeiro mandato. O delegado saiu da disputa e foi cair nos braços do ex-governador Paulo Hartung, que disputou o pleito de 2014 e ganhou, assumindo, assim, o cargo de governador pela terceira vez – ele já havia sido chefe do Executivo Estadual no período 2003/2006 e 2007/2010.
Pode se dizer que Contarato foi acusado de “trair” o amigo Magno Malta e o governador Casagrande e nos anos seguintes ele foi da equipe de Hartung: primeiro, como diretor-geral do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) e, depois, como corregedor-geral do Estado. Abraçado pelo então governador Paulo Hartung, o ‘Xerife do Trânsito’ entrou no Detran em janeiro de 2015 e saiu em 21 de agosto do mesmo ano, para fazer tratamento médico, conforme alegou à época. No entanto, Contarato voltou aos braços do Paulo em 20 de abril de 2016, quando assumiu a Corregedoria-Geral
Em 2018, Fabiano Contarato disputou o Senado pelo Rede Sustentabilidade. Fez campanha prometendo apresentar Projetos de Leis que iriam endurecer punições a criminosos e, sobretudo, a autores de acidentes de trânsito. Fez a campanha usando, inclusive, a Operação Lava Jato como bandeira – a mesma operação que levou o então ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) à cadeia e mais tarde os processos contra o presidente foram anulados e ele absolvido.
Com o perfil de enérgico diante criminosos, a maioria de seus 1.117.039 eleitores imaginou que o ‘Xerife do Trânsito’ fosse, de fato, aliado do Capitão Bolsonaro. Nas redes sociais e nas ruas, bolsonaristas pediam voto para Contarato, que foi eleito.
Logo depois de diplomado, Fabiano Contarato saiu do “armário” ideológico. Nascia ali um novo perfil do senador eleito, o de um político da esquerda. Negou que fosse bolsonarista e garantiu que jamais declarou, na recém vitoriosa campanha eleitoral, que era defensor de Jair Bolsonaro, que também acabara de ser eleito presidente do Brasil.
No dia 13 de dezembro de 2021, três anos após assumir a cadeira no Senado, Contarato anunciou a saída do Rede e foi para o Partido dos Trabalhadores (PT), com as bênçãos do presidente Lula – que assumia o terceiro mandato em janeiro de 2023. Curiosamente, dois anos antes – em 20 de junho de 2019 –, o senador Fabiano Contarato divulgou em seu ‘site’ que sempre foi defensor da Operação Lava Jato – a mesma que quase acaba com a vida de Lula:
“São mentirosas mensagens que circulam afirmando que eu defendo a anulação de processos ou a absolvição de qualquer réu da Operação Lava Jato, bem como eu ser contra as investigações já realizadas. Cada apuração e os processos têm o seu conjunto de provas objetivas e testemunhais. É público e notório, também, que me inspirei na Lava Jato para ser candidato ao Senado Federal, no ano passado. Fui eleito com o compromisso de combater a impunidade e a corrupção; ainda, de defender a Constituição Federal, as leis e os tratados internacionais que o país é signatário. Não abro mão e não recuo nem sequer um milímetro do que prometi”, pontuou Fabiano Contarato por meio de nota publicada em suas redes sociais.
Marcos do Val é outro que decepcionou os capixabas e caiu em descrédito com colegas senadores por conta de sua instabilidade emocional e até mesmo pela acusação de trair o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-deputado federal Daniel Silveira – os dois estão em prisão domiciliar. No dia 4 de setembro de 2025, a Comissão Diretora do Senado Federal oficializou licença ao senador para tratamento de saúde. O afastamento tem duração de 120 dias e vai até 21 de dezembro deste ano.
Recentemente, o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), a quem Marcos do Val vive criticando nas redes sociais, revogou medidas cautelares impostas ao parlamentar. A decisão do magistrado decorreu de pedido do Senado e da informação de que Marcos do Val iria se licenciar do mandato para tratamento de saúde. Marcos do Val, até então, usava tornozeleira eletrônica após viajar para os Estados Unidos ainda que com os passaportes bloqueados.
Na madrugada de 2 de fevereiro de 2023, Marcos do Val publicou em suas redes sociais a informação de que sofreu coação de Bolsonaro para se aliar ao ex-presidente em um golpe de Estado. Do Val disse ter negado a proposta feita por Bolsonaro e denunciado o caso. Horas depois da revelação, o senador comunicou que apresentaria sua renúncia no Senado Federal.
A revelação sobre o caso de coação foi feita durante uma ‘live’ nas redes sociais. Marcos do Val não especificou quando ocorreu a coação e nem a quem ele denunciou a tentativa de golpe. “Eu ficava p… quando me chamavam de bolsonarista. ‘Ah, o senador bolsonarista e tal’. Vocês esperem. Eu vou soltar uma bomba aqui para vocês: sexta-feira, vai… sexta-feira, vai sair na Veja, a tentativa do Bolsonaro, que me coagiu para que eu pudesse dar um golpe de Estado junto com ele. Só para vocês terem ideia. E é lógico que eu denunciei”, disse o senador. Pronto: foi alvo de chacota dos bolsonaristas, que o têm como traidor.
Marcos do Val é acusado por parte de seus eleitores de não honrar os 863.359 votos que recebeu em outubro de 2018. Foi eleito graças a sua defesa em prol da segurança pública e, sobretudo, pela ajuda do então candidato Renato Casagrande, eleito governador do Estado pela segunda vez naquele ano de 2018. Do Val é militar da reserva e na ocasião era instrutor, consultor e palestrante na área de segurança pública.
Hoje, Marcos do Val afirma ser um “homem da direita”. Mas nem sempre foi assim. Hoje ele está no Podemos, mas foi eleito pelo Partido Popular Socialista (PPS). Isso mesmo. O PPS, hoje, é o Cidadania. Outro detalhe: o PPS nasceu do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que, em seu X Congresso, em 1992, optou pela alteração da sigla.
Recentemente, Marcos do Val escreveu nas redes sociais que iria sair do Podemos, porque a legenda havia se aliado “a comunistas”. Ele pontuou que discordava do presidente Estadual do Podemos, o deputado federal Gilson Daniel, de ser aliado do governador Renato Casagrande, o mesmo que ajudou Marcos do Val a se tornar senador da República.
Marcos do Val ainda permanece no Podemos, que já anunciou apoio ao dois pré-candidatos às duas vagas no Estado no Senado: o governador Casagrande e o prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio.
Do Val vai ter dificuldade até mesmo de encontrar um partido para se candidatar a alguma coisa em 2026. Neste sentido, o caminho do ‘Xerife do Trânsito’, Fabiano Contarato, está mais fácil, pois, depois de abraçar o Paulo, ele abraçou o PT, onde, agora, é bem acolhido.



