Com voz baixa e muita sabedoria. Durante 30 minutos de audiência dentro da biblioteca pessoal do Papa Francisco, no Palácio Apostólico, no Vaticano, o governador Renato Casagrande apresentou ao Pontífice a Festa da Penha, o Convento, entregou uma imagem de José de Anchieta, canonizado por Francisco, e falaram sobre indígenas e futebol.
O momento único em nossas vidas começou com uma ideia do Adriano Zucolotto, também assessor do governador. Como nossa comitiva passaria por Roma antes de seguir para o Azerbaijão para participar da Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, a COP 29, não custava tentar uma audiência com o Papa. E, após a sugestão, Adriano acionou os contatos dentro da Igreja Católica aqui no Espírito Santo, foi feita uma carta com os assuntos a serem tratados com o Santo Padre e enviada ao Vaticano. Todos levaram terno escuro na mala, item obrigatório para visitar o Papa. Mas fomos sem saber se seríamos recebidos.
Ao chegar a Roma, tivemos a confirmação. O Santo Padre iria receber até quatro pessoas em sua biblioteca pessoal. Claro que o mais importante naquele momento era a presença do governador Casagrande e da primeira-dama, Dona Virgínia. Mas todos os cinco da comitiva se empolgaram com a possibilidade de conhecer o representante de Jesus na Terra.
No dia, um carro da embaixada brasileira em Roma nos deu suporte e nos buscou no hotel, e caminhamos até os portões do Vaticano. A ‘ficha’ começou a ‘cair’ quando passamos no portão de acesso, na liberação de nossa comitiva, demonstrando que estavam cientes da nossa ida. Ao chegar, saímos do carro em um grande pátio, que depois reconheci ao assistir o filme Conclave. Um membro da Guarda Suíça Pontifícia, que faz a segurança do Papa desde 1506, veio nos buscar. Então, seguimos prédio adentro. Passamos por lindos corredores e nos pediram para ficar em um salão. Naquele momento, fomos informados de que apenas quatro pessoas poderiam entrar, mas estávamos em cinco. Como Stella, nossa cerimonialista, fala muito bem inglês e italiano, claro que ela teria que entrar, assim como Adriano, que idealizou a visita e correu atrás para que tudo acontecesse. Eu aceitei ficar de fora, mas estava muito feliz em já estar ali naquele lugar que poucos estiveram.
Ficamos por volta de 1 hora naquele local e aproveitamos para fazer algumas fotos. Até que um comissário veio até nós e nos convidou. Nesse momento, dei aquele jeitinho brasileiro e fui andando junto com a comitiva. Então, como eu era o único que estava com mochila, que continha a bandeira do Espírito Santo que o governador pediria ao Papa para abençoar, me pararam. Nesse momento, pensei que meu jeitinho brasileiro não iria funcionar, mas apenas pediram para deixar a mochila com eles. Abri, peguei a bandeira e deixei a mochila. Os comissários perguntaram sobre a bandeira, pediram para traduzir as palavras “Trabalha e Confia” e, em seguida, nos autorizaram a entrar em outra sala. Senti que meu jeitinho tinha dado certo e que iria conseguir entrar.
Nos pediram para aguardar em uma sala pequena, toda de mármore, com um trono. Acredito que seja um salão onde o Papa faz pequenos atendimentos. Nesse momento, foi pedido para que não se fizessem mais fotos. E assim respeitamos. Na sala ao lado, uma freira aguardava sentada. Em um momento, um assessor pessoal do Papa veio até ela, conversaram, e ele entrou novamente. Depois de um tempo, um grupo de padres saiu e a freira foi chamada. E nós fomos chamados para a sala onde a freira estava. Então, entendemos que atrás daquela porta estava o Santo Pontífice.
Um segurança veio até nós e perguntou se queríamos tirar foto na janela, onde aparecia o Pátio do Vaticano ao fundo. Claro que aceitamos. Então, ele mesmo foi até a janela, abriu e nos posicionou, um a um, para fazer uma imagem de recordação. Depois dessas fotos, o mesmo segurança nos pediu para deixar nossos celulares sobre a mesa e que não mexêssemos mais. Sempre com muita educação. O assessor pessoal do Papa abriu a porta e veio até nós. Falando em português, nos perguntou em qual língua gostaríamos de conversar com o Papa. Falamos que tínhamos tradutor que entendia inglês, italiano, espanhol e, claro, o português.
O segurança entrou na sala dizendo que iria atrás de um tradutor português/espanhol e, um tempo depois, a freira saiu com um sorriso no rosto que demonstrava o quão boa foi sua audiência com o Papa. Nós estávamos eufóricos nesse momento, ainda mais pelo fato de que o Papa não tem costume de receber governadores em sua biblioteca pessoal. Todos que sabíamos até então que tinham sido recebidos pelo Papa, foi no pátio do Vaticano, no meio da multidão. Isso demonstra o prestígio dado pelo Papa ao nosso governador Renato Casagrande.
Em determinado momento, a porta se abriu, o assessor do Papa nos convidou. O governador e a primeira-dama foram os primeiros a entrar, seguidos por Stella, Adriano e, por último, eu. Papa Francisco fez questão de nos receber de pé, ao lado da sua mesa. Um por um nós o cumprimentamos. Mal sabia o que falar naquele momento. Um cinegrafista e um fotógrafo estavam presentes, além do tradutor.
Todos foram se sentando, e escolhi estrategicamente a cadeira do canto do lado oposto ao onde o fotógrafo estava, pois gostaria de ter depois da audiência aquela foto onde provavelmente eu apareceria de frente ao Papa. A conversa seguiu com o governador apresentando a Festa da Penha, o Convento e tudo o que falei no início desse texto.
O Papa, em determinado momento, falou sobre a importância de tratarmos com carinho os indígenas, chamados por ele de povos originários. Nesse momento, eu participei ao lembrar o governador da nossa escola indígena que criamos em Aracruz. Em determinado momento, o governador brincou com o Papa, dizendo que todo ano terminado com 4 um time ganha a Libertadores pela primeira vez e que isso aconteceu em 2014 com o San Lorenzo, time do Papa, e poderia acontecer naquele ano com o Botafogo dele. O Papa riu e aproveitou para perguntar ao governador quem era melhor, Pelé ou Maradona. A gente brinca dizendo que a resposta do governador é um segredo papal e somente nós saberemos o que ele respondeu.
O Papa, em nenhum momento, utilizou seu tradutor. Entendeu tudo o que falamos em português e também falou conosco em um portunhol que dava para compreender tudo. A audiência se aproximava de 30 minutos quando o Santo Padre deixou uma mensagem linda para o governador ao dizer que ele precisa governar usando a cabeça, o coração e as mãos. A cabeça para ter boas ideias, o coração para sentir o que é certo a se fazer, mas principalmente as mãos para agir e fazer para os que mais necessitam.
Ao fim da audiência, o governador Casagrande entregou a imagem do Santo José de Anchieta, pediu para o Papa abençoar a bandeira do Espírito Santo, que hoje está no gabinete do Governador do Estado, no Palácio Anchieta, e eu pedi, com receio de estar abusando, que abençoasse meu escapulário. Prontamente, o Papa pegou meu escapulário, abaixou a cabeça, fez sua oração, fez o sinal da cruz e me devolveu. Depois disso, só tiro o escapulário para dormir, com medo de quebrá-lo.
Por fim, o Papa nos presenteou com um terço, com o qual presenteei minha sogra, e uma medalha, que guardo com muito carinho em minha casa. Uma pessoa iluminada, com lindas palavras e que, humildemente, nem parecia ligar para seu cargo. Me sinto privilegiado por ter tido a oportunidade de apertar a mão, ver, conversar e ser presenteado por um ser humano tão incrível.
Obrigado, Francisco!



