Economia

Caso Apex: Cinelli mostrava KPMG como auditora e apresentava números positivos antes de ser afastado, informa Estadão

Elimar Cortes 24 de Outubro de 2026 4 min de leitura
Caso Apex: Cinelli mostrava KPMG como auditora e apresentava números positivos antes de ser afastado, informa Estadão

Reportagem publicada na sexta-feira (23/10) no jornal Estadão mostra como Fernando Cinelli, ex-presidente da Apex, escondia de sócios e conselheiros o cenário de insolvência que a empresa estava prestes a enfrentar - e enfrentou a partir do mês de agosto deste ano. Segundo a reportagem, meses antes de o caso vir à tona, documentos relacionados a uma rodada de captação de R$ 100 milhões, apresentados ao Conselho de Administração e a investidores, continham números otimistas: a empresa esperava quadruplicar seus ativos até 2032.

O material de Cinelli, segundo o Estadão, exibia o logotipo da KPMG, descrevia um serviço de auditora independente e o apontava como “em execução”. Em outra apresentação, dizia que os números seriam auditados por uma das quatro maiores empresas de auditoria globais esse ano. Procurada, a KPMG negou ao Estadão ter prestado o serviço de auditoria dos números. Questionada então se o documento seria uma fraude, a empresa não respondeu à reportagem.

A KPMG é uma das maiores redes globais de organizações independentes que prestam serviços profissionais de Auditoria, Tributação (Tax) e Consultoria (Advisory). Ela integra o seleto grupo conhecido como "Big Four" (as quatro maiores empresas de auditoria e consultoria do mundo), ao lado de Deloitte, PwC e EY. A PwC (PricewaterhouseCoopers), também citada por Cinelli, é uma das maiores redes mundiais em seu segmento, que inclui consultoria de negócios, auditoria, asseguração e consultoria tributária. As duas empresas, no entanto, desmentem Cinelli, afirmando jamais ter prestado serviços para o ex-presidente da Apex.

No dia 6 de agosto, a Apex, que tinha contrato de distribuição exclusivo com o BTG Pactual (BPAC11), afastou Cinelli e o diretor financeiro, Eduardo Siqueira, após apuração que identificou “inconsistências contábeis, gerenciais e financeiras” envolvendo a companhia. A empresa pediu recuperação judicial para se proteger dos credores. Antes da dívida bilionária vir à tona, era avaliada em R$ 1 bilhão.

Nos documentos, segundo o Estadão, o grupo projetava expansão acelerada, aumento do patrimônio sob gestão e retorno elevado sobre o capital. A projeção para 2032 era atingir R$ 74 bilhões em ativos sob supervisão. A Apex dizia ter registrado crescimento de 44% ao ano até 2025 e pretendia expandir apoiada em um modelo “validado após dez aquisições”.

No cronograma de captação é mencionado ainda “valuation PwC” como uma das atividades que seriam realizadas pela consultoria em abril, algo que a PwC nega ter realizado. O material continha ainda o logo da Falconi, focada em consultoria empresarial. A PwC nega ter avaliado a empresa. A PwC explicou que sua atuação como assessora financeira não incluía auditoria nem verificação independente dos números apresentados pela administração.

Procurada, a Apex diz que Fernando Cinelli optou por ocultar de todas as instâncias de governança a real situação financeira da empresa, incluindo o cenário de deterioração da liquidez e de risco de insolvência que se desenhava para a Companhia. Esse contexto esteve entre os fatores que motivaram o início de uma apuração interna, em julho, cujos desdobramentos levaram ao seu afastamento da presidência.

Os trabalhos também identificaram indícios de gestão temerária, desvios de valores para suas contas bancarias, e um quadro de profunda desorganização contábil, financeira e administrativa.

“Cinelli acumulava funções estratégicas no grupo: era presidente do Conselho de Administração, diretor executivo do Grupo Apex e único representante da BRM Apex Investimentos, entidade que concentra a maior parte dos passivos. Também figurava como administrador legal de mais de 170 entidades do grupo e detinha poder exclusivo de aprovação da maioria das contas bancárias, o que concentrava em suas mãos todas as decisões para a gestão financeira da companhia”.

A atual gestão da Apex diz que vem adotando as medidas administrativas e judiciais cabíveis para esclarecer integralmente os fatos, apurar responsabilidades e viabilizar a responsabilização dos envolvidos.

“A Apex reafirma seu compromisso com a transparência, a responsabilidade e a seriedade na condução desse processo. Nesse sentido, o pedido de recuperação judicial integra as medidas adotadas para viabilizar uma reestruturação ordenada da companhia, preservar seus ativos e criar condições para a reorganização de suas atividades, resguardando os interesses de investidores e credores”.

Ao Estadão, Fernando Cinelli afirmou que a presença da KPMG nas apresentações não significava que a empresa estivesse contratada para auditar as contas da Apex. Segundo o ex-presidente, a contratação de uma auditoria independente ainda estava em avaliação. Ele também declarou que as conversas com a PwC tratavam de estratégia e visão de negócios, e não da conferência dos números financeiros. Cinelli sustentou que os materiais da rodada de captação foram preparados pela administração, com apoio técnico da PwC e participação de diferentes áreas e sócios. Acrescentou que o conteúdo apresentado ao conselho foi discutido e aprovado em reunião e, posteriormente, levado à assembleia.