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Economia

Ex-presidente da Apex vira “comentarista da crise” no Instagram, mas não explica como R$ 23 milhões da empresa foram parar em suas contas pessoais

Elimar Cortes 10 de Outubro de 2026 4 min de leitura
Ex-presidente da Apex vira “comentarista da crise” no Instagram, mas não explica como R$ 23 milhões da empresa foram parar em suas contas pessoais

O ‘menino prodígio’ Fernando Antônio Kulnig Cinelli, 36 anos, apontado como um dos maiores responsáveis por rombo financeiro que atingiu a Apex Partners S/A e diversas pessoas físicas e jurídicas no Espírito Santo e em outros Estados, virou, de repente, comentarista da crise. Ele tem passado os últimos dias nas redes sociais, postando vídeos com informações e comentários sobre a crise. Desde que o caso veio à tona, em agosto deste ano, Fernando Cinelli já gravou quatro conteúdos para o Instagram, sempre com comentários limitados, impedindo que outras pessoas fora de suas redes ou eventuais credores possam confrontá-lo.

Fernando Cinelli começou a trabalhar cedo. Aos 18 anos, iniciou a carreira na construtora e incorporadora da família. Poucos anos depois, decidiu migrar para o mercado financeiro. Em 2013, fundou a Apex Partners, empresa que nasceu como uma boutique de investimentos e, ao longo dos anos, expandiu sua atuação para gestão de recursos, wealth management, mercado de capitais, crédito, fundos de investimento e estruturação financeira.

Sob seu comando, a Apex ampliou operações para São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de Portugal, tornando-se uma das principais empresas do segmento no Espírito Santo.

Agora, porém, ele vem tirando proveito da crise provocada por si próprio, segundo as investigações. No entanto, em nenhum dos quatro vídeos gravados, Fernando Cinelli explica como os R$ 23 milhões da empresa foram parar sem lastro em suas contas pessoais - fato que está sendo apurado na Justiça - , nem como uma empresa que parecia próspera e estava sob seu comando ruiu e foi levada a um processo de recuperação judicial do dia para a noite.

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Nos vídeos, Cinelli cobra apresentação de documentos, defende uma investigação independente, questiona a recuperação judicial e recomenda reunir investidores, credores e parceiros à mesa - propostas que seriam razoáveis, não fosse o fato de o passivo do Grupo chegar na casa de R$ 1 bilhão e de ter mais de 170 empresas vinculadas. Todavia, ele estava à frente de operações que terão que ser explicadas, como o galpão da ApexLog - que não era da empresa e tinha seu próprio quadro societário - ter sido dado como garantia em empréstimo realizado pela Apex, uma operação da qual ele esteve à frente.

No primeiro vídeo, internautas chegaram a ironizar nas redes de veículos de comunicação a camisa branca e o fundo neutro utilizado - típico de blogueiros quando se envolvem em polêmica utilizam na internet. Aos poucos foi mudando o cenários e chamando atenção por estar visivelmente mais magro. No último vídeo, publicado nesta semana, Cinelli parecia se comportar um assessor jurídico explicando o andamento do processo. Ou ensaiava um “momento palestrinha” nas redes, como se o caso não o envolvesse ou como se não fosse ele a figura apontada pela própria empresa como responsável pelos fatos.

A estranha estratégia, na avaliação do mercado, estaria sendo usada para tentar confundir a opinião pública. Estranha porque, para quem acompanha apenas os vídeos, ele pode parecer um observador atento e preocupado em relação à Apex. Mas ele esteve no comando da empresa desde sua fundação, há 13 anos, até a descoberta dos problemas agora discutidos. Além de ser Presidente e Administrador Legal de todos os CNPJs do Grupo, Cinelli era também o Diretor que assinava os balanços da holding e da Apex Investimentos, demonstrações que concentram a maior parte das inconsistências contábeis identificadas até o momento.

Cinelli foi retirado da presidência no início de agosto após apurações internas identificarem inconsistências financeiras. Ou seja: o próprio grupo identificou que a prosperidade toda que era apresentada em relatórios e balanços começava a dar sinais estranhos e decidiu buscar respostas. O que foi encontrado era algo muito maior que se imaginava.  Desde seu afastamento, a Apex entrou num processo de recuperação judicial e busca respostas internas diante da desorganização contábil encontrada e externas para os credores e a sociedade.

Enquanto a atual gestão busca solucionar o problema, o ex-presidente segue apostando numa nova função: a de blogueiro comentarista da crise, mas sem explicar muita coisa. Não por acaso, o número de curtidas no seu vídeo foi despencando. No início estavam na casa dos 30 mil. Agora, na faixa das 200 - um sinal de que sua narrativa pode estar cansando.

Ao longo da carreira, Cinelli buscou especialização em instituições internacionais. Entre 2018 e 2020, cursou o programa Owner/President Management (OPM) da Harvard Business School, voltado para empresários e executivos. Em 2024, recebeu da mesma instituição um certificado em Board of Directors.

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