O senador Marcos do Val (Avante) publicou em suas redes sociais a informação de que, em oito anos, o Governo do Estado “arrecadou aproximadamente R$ 220 bilhões” e que, deste montante, “R$ 1 bilhão foram investidos na segurança pública”. Ou seja, o valor “representa apenas 0,45% de tudo o que entrou nos cofres públicos do Estado”. O Executivo Estadual esclarece didática e tecnicamente que a discussão sobre segurança pública precisa ser feita com base em conceitos corretos de finanças públicas e que os números apresentados pelo senador confundem investimento público com gasto total na política pública.
Marcos do Val, que está em plena campanha para tentar a reeleição de senador, afirma na publicação que “segurança pública não pode ser tratada como marketing de pré-campanha eleitoral”. E escreve, de maneira equivocada: “Quem vê os outdoors espalhados pela cidade pode até acreditar que a segurança pública recebeu investimentos históricos.”
O secretário Estadual de Economia e Planejamento e coordenador-executivo do Programa Estado Presente em Defesa da Vida, Álvaro Duboc – que é delegado de Polícia Federal aposentado –, explica que, quando se fala que o Espírito Santo investiu cerca de R$ 1,7 bilhão em segurança pública entre 2019 e 2025 – e não R$ 1 bilhão, como diz Marcos do Val –, está se falando exclusivamente das despesas classificadas como investimentos, ou seja, construção e reforma de unidades, aquisição de viaturas, armamentos, equipamentos, sistemas tecnológicos e outras despesas de capital.
Entretanto, pondera Álvaro Duboc, “segurança pública não é sustentada apenas por investimentos. A maior parte dos recursos destinados à área está concentrada nas despesas correntes, especialmente remuneração dos profissionais, formação e capacitação, manutenção da frota, contratos operacionais, inteligência policial, custeio das unidades de segurança, sistema prisional e demais serviços essenciais ao funcionamento da política pública.”
Portanto, acrescenta o secretário, “considerando o conjunto dessas despesas, o Espírito Santo destinou aproximadamente R$ 28,3 bilhões à segurança pública entre 2019 e 2025. Além disso, é importante observar que o Espírito Santo é hoje uma exceção positiva no cenário nacional. Enquanto a média dos Estados brasileiros investe cerca de 6% de sua receita em investimentos públicos, o Espírito Santo conseguiu direcionar aproximadamente 20% de sua receita para investimentos ao longo dos últimos anos.”
Os números demonstram claramente a prioridade conferida à área. Entre 2015 e 2018, os investimentos em segurança pública somaram cerca de R$ 239 milhões. Esses quatro anos foram justamente o período em que o Estado foi governador por Paulo Hartung, um dos coordenadores da campanha do ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) ao Governo do Estado nas eleições de outubro deste ano e que também é apoiado pelo senador Marcos do Val.
Já entre 2019 e 2025, esse valor alcançou aproximadamente R$ 1,7 bilhão, crescimento superior a sete vezes, representando o maior ciclo de investimentos em segurança pública da história do Espírito Santo. Neste período, o governador foi Renato Casagrande (PSB), criador do Estado Presente e que renunciou ao cargo em abril de 2026 para disputar uma das duas vagas ao Senado. Em seu lugar, assumiu Ricardo Ferraço (MDB).
O secretário Álvaro Duboc ensina mais. Segundo ele, “a comparação feita pelo senador [Marcos do Val] produz uma distorção conceitual. Seria o mesmo que afirmar que o orçamento da Saúde deve ser medido apenas pelo valor gasto na construção de hospitais, ignorando médicos, enfermeiros, medicamentos, exames, contratos e demais despesas necessárias para o funcionamento da rede. Ou dizer que os investimentos em Educação se resumem à construção de escolas, desconsiderando professores, merenda, transporte escolar, material didático e toda a estrutura que garante o ensino diariamente.”
Álvaro Duboc afirma ainda que “nenhuma política pública funciona apenas com obras e aquisições. O investimento é importante porque amplia capacidade e moderniza estruturas, mas a entrega do serviço público depende fundamentalmente do custeio permanente e dos profissionais que atuam diariamente.”
Segundo ele, na segurança pública ocorre exatamente a mesma lógica. “O policial que está nas ruas, a viatura em operação, o sistema de inteligência funcionando, as investigações em andamento, o sistema prisional operando, a perícia produzindo provas e as operações integradas que combatem as organizações criminosas são financiados majoritariamente por despesas correntes e não por investimentos.”
O secretário e coordenador do Estado Presente finaliza, afirmando também que “o esforço financeiro permitiu recompor efetivos, modernizar equipamentos, renovar frotas, ampliar o uso de tecnologia, fortalecer a inteligência policial, estruturar a Polícia Científica, consolidar a Polícia Penal e ampliar significativamente a capacidade operacional das forças de segurança.”
Para ele, mais importante do que a discussão sobre peças publicitárias são os resultados alcançados. Em 2009, o Espírito Santo registrou 2.034 homicídios. Em 2025, esse número caiu para 796, o menor patamar dos últimos 30 anos: “É legítimo debater prioridades e propor novos caminhos para a segurança pública. O que não contribui para esse debate é comparar investimentos com arrecadação total do Estado, pois isso produz uma conclusão tecnicamente equivocada e incompatível com a realidade orçamentária de qualquer política pública”, pondera, mais uma vez, Álvaro Duboc.