O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um acordo com o Irã para encerrar o conflito lançado por ele no final de fevereiro, depois de um domingo marcado por ataques de Israel contra o Líbano e ameaças de retaliação. Trump confirmou a reabertura do Estreito de Ormuz, o fim do bloqueio naval aos portos do Irã e a suspensão das hostilidades em todas as frentes, inclusive no Líbano. A assinatura do memorando será na sexta-feira (19/06), dando início a uma nova e potencialmente complexa nova fase de negociações de 60 dias.
“O acordo com a República Islâmica do Irã está concluído. Parabéns a todos! Autorizo integralmente a abertura do Estreito de Ormuz sem pedágio e, simultaneamente, autorizo a remoção imediata do bloqueio naval dos Estados Unidos. Navios do mundo, liguem seus motores. Deixem o petróleo fluir!”, escreveu o presidente em sua rede social, o Truth Social.
Segundo Trump, a retomada do tráfego em Ormuz acontecerá até sexta-feira, “para fins de remoção de minas”, algo confirmado por fontes iranianas, que não deixaram claro se haverá algum tipo de pedágio cobrado, uma demanda de Teerã nas negociações.
“Este Grande Acordo trará paz e segurança para toda a região. Muitos presidentes tentaram fazer a paz com o Irã, e todos falharam antes de mim. Os líderes da região encontraram, pela primeira vez, um presidente que pode ajudá-los a alcançar a verdadeira paz”, acrescentou Trump.
O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã para Assuntos Jurídicos e Internacionais, Kazem Gharibabadi, confirmou que “a partir desta noite, o bloqueio naval dos EUA contra o Irã será encerrado”, declarando “o fim imediato e permanente da guerra e das operações militares em várias frentes, incluindo o Líbano”.
O representante iraniano disse que, com base no memorando, e “condicionado ao cumprimento de compromissos pelos Estados Unidos”, será lançado um período de 60 dias para negociar pontos sensíveis e com impacto duradouro a partir da assinatura, na próxima sexta-feira, na Suíça.
O primeiro é a retirada das sanções primárias e secundárias, além da “revogação das resoluções do Conselho de Segurança e do Conselho de Governadores” da Agência Internacional de Energia Atômica, referência às condenações e sanções ligadas às atividades nucleares. Teerã quer ainda a liberação imediata de parte de seus bilhões de dólares congelados no exterior. A agência Mehr News revelou que, pela proposta, US$ 12 bilhões seriam disponibilizados “antes do início das negociações” de 60 dias, e outros US$ 12 bilhões seriam liberados durante as conversas.
Em comunicado conjunto, Reino Unido, França, Itália e Alemanha disseram que estão dispostos a levantar as sanções contra Teerã, “em resposta a medidas claras e verificáveis do Irã em relação ao seu programa nuclear”, mas sem tocar no tema dos fundos congelados.
O programa nuclear é o segundo e potencialmente mais espinhoso ponto. Até agora, Washington afirmava que qualquer acordo deveria conduzir ao “desmantelamento” do programa nuclear, permitir recuperar o material para destruí-lo e retirá-lo do país, e deveria conter um compromisso de que o Irã não buscará uma arma atômica. Teerã quer manter ao menos alguma capacidade de conduzir atividades nucleares, como o enriquecimento de urânio para fins civis. Embora os diplomatas ainda tenham um logo caminho pela frente, o tom de Gharibabadi e de outras vozes do regime, como as Forças Armadas, foi de vitória.
“O inimigo, que atacou para implementar seus objetivos nefastos, sofreu derrota em todos os seus objetivos, e a República Islâmica do Irã obteve grandes vitórias na guerra. Incluímos todas as nossas posições importantes na minuta do acordo”, disse, em entrevista à imprensa estatal. “Este memorando de entendimento não significa confiança no inimigo e foi redigido com desconfiança. Monitoraremos o cumprimento dos compromissos dos Estados Unidos.”
De acordo com o premier do Paquistão, Shehbaz Sharif, na rede social X, “os mediadores facilitarão uma série de reuniões esta semana”, e que “essas discussões pré-implementação estabelecerão as bases para as negociações técnicas e a cerimônia oficial de assinatura”. Segundo o New York Times, o texto será assinado por Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e principal negociador, e pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance.
“Não vou dizer que todos vão cantar Kumbaya (música tradicional dos EUA) amanhã — disse Vance. — Vai levar um pouco de tempo para aprendermos os caminhos da paz, mas acho que demos um passo muito, muito importante esta noite.”
Se confirmado um aperto de mãos, seria a interação de mais alto nível entre os dois países desde a Revolução Islâmica de 1979. À Fox News, Vance disse que trabalhava para ir à Suíça, e não descartou a presença de Trump no evento.
Ataque em Beirute
Horas antes do anúncio, Israel lançou um ataque contra um distrito ao sul de Beirute, colocando a reta final de negociações em risco. Em sua rede social, Donald Trump disse que o premier israelense, Benjamin Netanyahu, deveria evitar ações armadas contra o Hezbollah enquanto a Casa Branca buscava um acerto com Teerã. “O ataque desta manhã em Beirute não deveria ter acontecido, especialmente em um dia tão especial como este, em que estamos tão perto de um acordo de paz com o Irã”, escreveu o presidente americano em sua rede social, o Truth Social. “Estamos muito perto de um acordo que trará paz à região, incluindo ao Líbano, e todos os lados devem recuar.”
Segundo Netanyahu, os bombardeios contra Dahiyeh, o subúrbio da capital libanesa que serve como base para o Hezbollah, ocorreram em resposta a disparos do grupo contra seu território. A Defesa Civil libanesa afirmou que três pessoas morreram e ao menos 15 ficaram feridas. Em entrevista ao portal Axios, Trump disse que a ação atrasou “em algumas horas” o anúncio do acordo.
“É tão ruim, eu não conseguia acreditar. Uma hora antes de assinarmos o acordo”, afirmou, sem poupar palavras a Netanyahu. “Por que Bibi (apelido de Netanyahu) teve que fazer um ataque, caramba? Eu fiquei muito p…. Eu disse isso a ele. Ele não tem o menor bom senso. Eu disse isso a ele.”
(Fonte: O Globo)



