O vazamento de dados sigilosos da Receita Federal atingiu também o procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, além de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A informação foi confirmada na terça-feira (17/02) pela Suprema Corte, que se manifestou sobre operação deflagrada mais cedo pela Polícia Federal (PF).
Segundo o STF, as investigações registraram “múltiplos acessos ilícitos” ao sistema da Receita Federal, sem “justificativa funcional”. Esses acessos teriam levado, posteriormente, ao vazamento de dados, que chegaram a circular na imprensa.
“Foram constatados diversos e múltiplos acessos ilícitos ao sistema da Secretaria da Receita Federal do Brasil, seguindo-se de posterior vazamento das informações sigilosas”, disse a Suprema Corte, em nota sobre o caso.
“As investigações iniciais demonstraram, conforme relatório enviado pela Receita Federal ao STF, a existência de ‘bloco de acessos cuja análise, pelas áreas responsáveis, não identificou justificativa funcional'”, acrescentou.
Quatro investigados
Em sua nota, o STF também divulgou o nome dos investigados: Luiz Antônio Martins Nunes, Luciano Pery Santos Nascimento, Ruth Machado dos Santos e Ricardo Mansano de Moraes. A Corte também determinou medidas cautelares como o afastamento do cargo público, a retenção de passaporte e uso de tornozeleira eletrônica, além da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático.
A suspeita de vazamento ocorreu com o estouro do caso Master, instituição financeira acusada de cometer fraudes bilionárias. Foi revelado, por exemplo, que a esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, havia assinado contrato milionário para atuar na defesa do banco em causas públicas, o que causou questionamentos sobre a relação entre o ministro e o banco.
A operação ocorreu por representação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e foi autorizada por Moraes.
Quatro servidores da Receita Federal foram alvos de operação da Polícia Federal na terça-feira, para investigar suposto vazamento de informações de ministros do STF e de seus familiares. Os suspeitos teriam usado o sistema do órgão para divulgar dados sigilosos. Os mandados de busca e apreensão da PF foram cumpridos nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.
Os alvos
Luiz Antônio Martins Nunes: Servidor desde 1981, Luiz Antônio Martins atualmente é técnico do Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) no Rio de Janeiro, órgão em que ingressou em 2000. Ele está lotado na delegacia da Receita Federal no estado.
Além de esposa de Moraes, filho de um ministro do STF teve dados da Receita acessados indevidamente
Ricardo Mansano de Moraes: Auditor fiscal da Receita, Ricardo Mansano de Moraes está no cargo desde 2007, e atua na Equipe de Gestão do Crédito Tributário e do Direito Creditório (Eqrat), uma área do órgão que gerencia a gestão de créditos tributários que contribuintes podem receber da União. Ele trabalha na Delegacia da Receita em Presidente Prudente, no interior de São Paulo.
Em suas redes sociais, o auditor fiscal segue perfis de políticos de direita, como do ex-presidente Jair Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e dos deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG) e Kim Kataguiri (UNIÃO-SP).
Ruth Machado dos Santos: Técnica do Seguro Social, Ruth Machado ingressou no funcionalismo em 1994. Hoje, é agente administrativa em uma delegacia da Receita em no Guarujá, litoral de São Paulo.
Luciano Pery Santos: Também atua como técnico do Seguro Social, mas em uma delegacia da Receita em Salvador, capital da Bahia. Está no serviço público desde 1983.
Os quatro servidores foram afastados de seus cargos e prestarão depoimentos à PF, segundo o Supremo.
Receita e Serpro soltam nota
Em nota, a Receita Federal diz que instaurou uma auditoria sobre o vazamento de informações de ministros do STF após solicitação da ação do STF em 12 de janeiro. “A auditoria, que envolve dezenas de sistemas e contribuintes, está em andamento, sendo que desvios já detectados foram preliminarmente informados ao relator no STF”, diz o comunicado divulgado após deflagrada a operação da PF.
Na mesma nota, a Receita Federal afirmou que “além dos procedimentos no âmbito do inquérito, noticiados hoje (17/2/2026), com base em informações prestadas pela própria Receita Federal do Brasil, há prévio procedimento investigatório em parceria com a autoridade policial, cujos resultados poderão ser divulgados oportunamente.”
O Serpro também divulgou nota sobre o caso. Diz “que todos os sistemas desenvolvidos e mantidos pela estatal são integralmente rastreáveis, permitindo a identificação, o monitoramento e a auditoria de eventuais irregularidades”.
Afirmou também que “seus empregados e empregadas não possuem acesso ao conteúdo das bases de dados dos órgãos clientes”. “A atuação do Serpro limita-se à provisão e à gestão da infraestrutura tecnológica e dos sistemas, não havendo permissão institucional para consulta a informações fiscais ou pessoais armazenadas nas bases sob responsabilidade dos órgãos atendidos.”
Sindifisco diz que acompanha o caso
O Sindifisco, que representa auditores fiscais, afirma que vê “com preocupação o suposto vazamento, visto que o dever de proteção das informações tributárias constitui garantia legal do contribuinte e é pilar essencial da confiança na Administração Tributária”.
Na nota, diz ainda que acesso aos dados dos contribuintes “não constitui quebra de sigilo e faz parte da rotina de trabalho dos Auditores-Fiscais da Receita Federal, sendo prática essencial para a realização de auditorias e fiscalizações”.
Mas a entidade diz que a divulgação dos dados “é crime, sendo um desvio incomum que deve ser punido” e reforça que os servidores citados têm “seu direito ao contraditório e à ampla defesa preservado”.



