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De volta à origem na Praça Costa Pereira. Assim foi boa parte da tarde da última segunda-feira (25/07) da vice-governadora do Espírito Santo, Jacqueline Moraes (PSB), que participou de evento em comemoração ao Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, promovido pelo Centro Cultural Capixaba (Cuca) e que teve o objetivo de promover o desenvolvimento social e econômico das mulheres negras empreendedoras. Homenageada, Jacqueline Moraes, que também é empreendedora individual – ela foi, por mais de 15 anos, vendedora ambulante no Centro de Vitória –, falou para as pessoas presentes na Costa Pereira sobre seu primeiro livro “Origem”, lançado recentemente e que relata fatos históricos do Estado, apresentando uma história de determinação, sucesso e luta por reconhecimento.

Nesta entrevista exclusiva ao Blog do Elimar Côrtes, Jacqueline Moraes, 46 anos, casada, mãe de três filhos, nascida em Duque de Caxias (Rio), fala da missão dada pelo governador Renato Casagrande (PSB), de ser pré-candidata a uma das 10 vagas destinadas ao Espírito Santo na Câmara dos Deputados nas eleições de outubro deste ano.

Ela veio para o Estado aos 12 anos e fez do Espírito Santo sua casa. Formou-se recentemente em Bacharel em Direito. Já foi vereadora de Cariacica entre os anos de 2013 a 2016. Iniciou sua vida política nos movimentos comunitários e sociais. Em seu mandato como vereadora em Cariacica, foi vice-presidente da Mesa Diretora e relatora de importantes Comissões, como de Saúde, Educação e Assistência Social. Jacqueline é a primeira mulher a assumir o cargo de Vice-Governadora do Espírito Santo.

Abaixo, os tópicos da conversa com Jacqueline Moraes:

A Origem

No livro, conto minha trajetória em paralelo a fatos históricos do Estado. Narro trajetória de minha vida como uma mulher da periferia que desafiou o impossível, rompendo todas as dificuldades que fariam com que eu fosse mais uma pessoa a permanecer nas difíceis condições de onde nasci. Mostro como enfrentei as adversidades e fiz das dificuldades o combustível para mudar minha condição de vida.

Nasci em uma família muito simples e pobre da Baixada Fluminense. Viemos para ao Espírito Santo e moramos em Flexal, Cariacica, quando meus pais buscavam uma vida melhor. Diante das dificuldades, aos 14 anos eu já estava trabalhando como ambulante.

Ambiente familiar na Praça Costa Pereira

Hoje eu pude voltar à Praça Costa Pereira mais uma vez, onde costumo passar diariamente para seguir ao trabalho, no Palácio da Fonte Grande. Pude rever velhos amigos, como Baiano da Cocada, os taxistas, o Jeferson da Papelaria Santana, o dono e funcionários do Restaurante Via Augusta. São antigos comerciantes da região e de outras áreas do Centro que me  ajudaram muito quando cheguei aqui para trabalhar como vendedora ambulante, numa época em que éramos perseguidos pelos ‘rapas’ – fiscais da Prefeitura de Vitória que proibiam a atuação de ambulantes e camelôs na cidade, mas hoje o trabalho é normalizado e permitido. Foi no Centro que me transformei numa das líderes dos vendedores ambulantes.

O ambiente da Praça Costa Pereira é bem familiar para mim. Por mais de 15 anos, eu chegava cedo aqui, montava barracas, trabalhava o dia todo, no final do dia desmontavas as barracas, embarcava num Transcol e ia embora para casa. Na Costa Pereira, eu me sinto em casa.

Trabalho duro

Naquela ocasião eu via os carros pretos oficiais passarem pela Costa Pereira, mas não tinha consciência política. Só adquiri essa consciência quando voltei a estudar, fazendo o EJA (Educação de Jovens e Adultos, uma modalidade de ensino destinada ao público que não completou, abandonou ou não teve acesso à educação formal na idade apropriada). Trabalhei durante um mês na Papelaria Castorino Santana, da General Osório, com dona Berta. Ela me aplicou um teste de Matemática e fui aprovada. Foi minha primeira experiência de Carteira de Trabalho assinada. Fiquei só um mês, porque meu pai, que também era ambulante, me chamava para ir com ele e demais membros da nossa família para trabalhar em festas no interior do Estado nos finais de semana com nossas barracas. Meu pai fazia questão de ver toda a família junta.

Missão dada pelo governador

Estou num momento muito feliz na minha vida, pois aceitei a missão que foi dada pelo governador Renato Casagrande de ser pré-candidata a deputada federal. Minha bandeira, caso seja eleita, será o de trabalhar para a melhoria da representação feminina na política. Para tanto, é preciso aperfeiçoar a educação e incentivar o empreendedorismo feminino.

Eu mesma sou fruto do EJA. O País precisa ter mais creches funcionando em tempo integral. Minha filha mais velha ficou em creche em tempo integral, o que me possibilitou a ter mais autonomia para trabalhar e estudar. Concluí o antigo segundo grau e hoje sou Bacharel em Direito. Até os 26 anos de idade eu era uma pessoa sem consciência política por que não tinha educação.

O empreendedorismo feminino estimula a redução das diferenças de oportunidades e de carreira, favorecendo a diversidade de negócios.  Tenho uma agenda específica na Vice-Governadoria, que é a Agenda Mulher. Trabalhamos inclusive formação política de mulheres dentro de um órgão público. Nossa agenda tem uma política pública de formação política apartidária, que fizemos dentro desse programa, Agenda Mulher Empreendedora. Trabalho com a ideia de a mulher empreender. Empreender emocionalmente, politicamente, socialmente. Essa agenda nasceu desde o primeiro dia do governo, junto comigo. Deixo como legado para a sociedade como uma entrega de qualificação, formação, de empoderamento feminino.

As mulheres, no Brasil, ficaram mais de 400 anos sem direitos. Passamos a ter direito ao voto há apenas 90 anos. Há muito, portanto, o que fazer para recuperar esse tempo perdido. Minha consciência política veio com a minha liderança entre os ambulantes e no bairro onde residia.

‘Marcha é só para Jesus’

A Marcha para Jesus é um ato de fé. Tivemos aqui em Vitória, em 2020, um evento muito lindo. Por conta da pandemia da Covid-19, o evento ocorreu com todos os cuidados, com as pessoas dentro de seus carros e se protegendo. Houve buzinaço e me lembro bem por que eu estava no comando do Executivo Estadual na ocasião. Muitos líderes religiosos vão para a Marcha para Jesus imbuídos de fé. No entanto, o que se viu no sábado (23/07), com a presença do presidente Jair Bolsonaro em Vitória, foi mais um showmício.

As igrejas promovem atitude de fé. Deus não comunga com esse tipo de política; Deus quer a paz. É como se boa parte das pessoas não conhecessem o Cristo ressuscitado. Os verdadeiros cristãos estão preocupados com os filhos, com uma melhor educação, com mais creches, com moradia. Os verdadeiros cristãos não podem ficar fazendo sinais de arminhas, sobretudo, em culto religioso. A Marcha deveria ser só para Jesus. (Em uma de suas redes sociais, Jacqueline escreveu na terça-feira: “Sempre enfatizo que o Evangelho de Jesus não tem cara, cor e nem religião. Isso porque Cristo não veio para segregar, Ele veio para nos unir em teu mais perfeito amor, que tem o poder de transformar vidas. Quando Jesus iniciou seu ministério, ele pregava sobre o amor, respeito e igualdade, recusando disputas bizantinas entre os seguidores das religiões oficiais. Buscar entender como a graça de Deus funciona sobre as nossas vidas é simplesmente libertador!”