Carregando...
Em artigo produzido para o Blog do Elimar Côrtes, o chefe da Divisão
de Polícia Comunitária da Diretoria de Direitos Humanos e Polícia
Comunitária da Polícia Militar do Estado do Espírito Santo, major Sandro Roberto Campos, apresenta
as múltiplas faces em torno das complexas funções do policial militar em
relevante contraponto a uma visão superficial e unilateral de prisões,
apreensões e operações.
“Suas missões são inúmeras, principalmente, aquelas que fomentam na
sociedade a destinação de tempo para a escuta da sociedade e mediações de
conflitos cotidianos em proporções de ‘menor’ potencial ofensivo. Estes que são
em maior quantidade, que requerem exatamente mais habilidade do policial atuar,
em nítido contraponto ao ‘combate”, pontua o major Campos. Abaixo, a íntegra do artigo.
sociedade a destinação de tempo para a escuta da sociedade e mediações de
conflitos cotidianos em proporções de ‘menor’ potencial ofensivo. Estes que são
em maior quantidade, que requerem exatamente mais habilidade do policial atuar,
em nítido contraponto ao ‘combate”, pontua o major Campos. Abaixo, a íntegra do artigo.
As “funções” do policial militar: Entre o combate e a contemporaneidade
Convido
aos nobres e críticos leitores a raciocinarem para além dos limites impostos ao
reducionismo reflexivo em torno das competências envolvidas para a “produção”
da paz e da ordem.
aos nobres e críticos leitores a raciocinarem para além dos limites impostos ao
reducionismo reflexivo em torno das competências envolvidas para a “produção”
da paz e da ordem.
A
segurança pública não é um termo cartesiano que possa ser medida em torno de
dados estatísticos sobre fatos que tão somente ocorreram, ou ainda, não decorre
em essência de operações policiais episódicas e voláteis em pontos críticos de
criminalidade.
segurança pública não é um termo cartesiano que possa ser medida em torno de
dados estatísticos sobre fatos que tão somente ocorreram, ou ainda, não decorre
em essência de operações policiais episódicas e voláteis em pontos críticos de
criminalidade.
Muito
embora seja importante a mensuração de taxas criminais para a construção de
políticas públicas, bem como também sejam necessárias as operações policiais
enquanto meio de gradação emergencial nos hot
spots, o contexto demanda altíssima complexidade.
embora seja importante a mensuração de taxas criminais para a construção de
políticas públicas, bem como também sejam necessárias as operações policiais
enquanto meio de gradação emergencial nos hot
spots, o contexto demanda altíssima complexidade.
A
temática é circundada, principalmente na atualidade, pelos profissionais de
segurança pública. Com ênfase àqueles que “policiam” as cidades, no Brasil, assim
são denominados “policiais militares”. A natureza de suas funções é
multifacetada e muito difícil de ser efetivamente descrita em parcas linhas.
temática é circundada, principalmente na atualidade, pelos profissionais de
segurança pública. Com ênfase àqueles que “policiam” as cidades, no Brasil, assim
são denominados “policiais militares”. A natureza de suas funções é
multifacetada e muito difícil de ser efetivamente descrita em parcas linhas.
Essa
afirmação é muito bem evidenciada conforme menciona o professor norte americano
Herman Goldstein (2003, p.37):
afirmação é muito bem evidenciada conforme menciona o professor norte americano
Herman Goldstein (2003, p.37):
“A função da polícia é
incrivelmente complexa. O alcance total das responsabilidades policiais é
extraordinariamente amplo. Muitas de suas incumbências estão tão interligadas
que parece impossível separá-las. E os numerosos conflitos entre os diferentes
aspectos da função não conseguem ser facilmente reconciliáveis. Qualquer um que tencione criar uma
definição viável para o papel da polícia normalmente irá se perder em
fragmentos de velhas imagens e em uma opinião, recém-descoberta, a respeito de
quão intricado é o trabalho policial. (Grifo nosso)
incrivelmente complexa. O alcance total das responsabilidades policiais é
extraordinariamente amplo. Muitas de suas incumbências estão tão interligadas
que parece impossível separá-las. E os numerosos conflitos entre os diferentes
aspectos da função não conseguem ser facilmente reconciliáveis. Qualquer um que tencione criar uma
definição viável para o papel da polícia normalmente irá se perder em
fragmentos de velhas imagens e em uma opinião, recém-descoberta, a respeito de
quão intricado é o trabalho policial. (Grifo nosso)
Nesse
horizonte contemporâneo, vale destacar essas funções lastreadas aos três níveis
de prevenção de Estado: primária, secundária e terciária. No contexto da função
primária estariam àquelas ações ligadas ao valioso período em que o crime não
foi praticado, na prevenção secundária estão enquadradas ações envidadas para o
momento em que o crime está sendo cometido e a terciária são as funções de
controle, redução de danos e ressocializações, ou seja, após a incidência dos
delitos praticados.
horizonte contemporâneo, vale destacar essas funções lastreadas aos três níveis
de prevenção de Estado: primária, secundária e terciária. No contexto da função
primária estariam àquelas ações ligadas ao valioso período em que o crime não
foi praticado, na prevenção secundária estão enquadradas ações envidadas para o
momento em que o crime está sendo cometido e a terciária são as funções de
controle, redução de danos e ressocializações, ou seja, após a incidência dos
delitos praticados.
Para
Dominique Monjardet, as tarefas centradas no “verdadeiro” trabalho policial não
possuem entre si nenhuma unanimidade, não há peso entre uma e outra, e a
legitimidade de atuações policiais depende do público que é atendido
(MONJARDET, 2012).
Dominique Monjardet, as tarefas centradas no “verdadeiro” trabalho policial não
possuem entre si nenhuma unanimidade, não há peso entre uma e outra, e a
legitimidade de atuações policiais depende do público que é atendido
(MONJARDET, 2012).
Ao
policial cabe tão somente: a realização de prisões, apreensões de armas de fogo
e drogas ilícitas? Cumprimentos de Mandados de Buscas e apreensões e prisões? E
a midiatização de operações policiais episódicas, voláteis e não permanentes?
policial cabe tão somente: a realização de prisões, apreensões de armas de fogo
e drogas ilícitas? Cumprimentos de Mandados de Buscas e apreensões e prisões? E
a midiatização de operações policiais episódicas, voláteis e não permanentes?
Esses
questionamentos são evocados em meio à espetacularização da violência e a
midiatização superficial acerca das causas criminais com ênfase em seus
efeitos. Um amplo e irrestrito debate se desponta.
questionamentos são evocados em meio à espetacularização da violência e a
midiatização superficial acerca das causas criminais com ênfase em seus
efeitos. Um amplo e irrestrito debate se desponta.
O
então tenente-coronel Cleucimar S. Rabelo de Sousa, da Polícia Militar do Mato
Grosso, descreve em seu belíssimo artigo “O serviço policial, os conflitos
sociais e o foco de atuação do policiamento de rádio patrulha em Cuiabá”, que a
grande maioria das ocorrências atendidas pelos policiais militares em seu
Estado entre os anos de 2005 e 2010 foram da natureza não criminais.
então tenente-coronel Cleucimar S. Rabelo de Sousa, da Polícia Militar do Mato
Grosso, descreve em seu belíssimo artigo “O serviço policial, os conflitos
sociais e o foco de atuação do policiamento de rádio patrulha em Cuiabá”, que a
grande maioria das ocorrências atendidas pelos policiais militares em seu
Estado entre os anos de 2005 e 2010 foram da natureza não criminais.
Para o oficial, “(…)
entre 2005 e 2010, constatou-se que as questões não criminais também
representaram a maioria das solicitações de atendimento (em média 62% do
total), enquanto aquelas que denunciavam crimes corresponderam, em média, a
38%”.
entre 2005 e 2010, constatou-se que as questões não criminais também
representaram a maioria das solicitações de atendimento (em média 62% do
total), enquanto aquelas que denunciavam crimes corresponderam, em média, a
38%”.
Em uma análise mais detalhada,
o autor cita Vanagunas (2002) afirmando que “a polícia tem dificuldade de
reconhecer os conflitos não criminais como o seu principal foco de atuação e,
por isso, acaba priorizando o
atendimento de ocorrências criminais e a prisão do criminoso, deixando
as ocorrências não criminais, geralmente, em segundo plano”. (Grifo nosso)
o autor cita Vanagunas (2002) afirmando que “a polícia tem dificuldade de
reconhecer os conflitos não criminais como o seu principal foco de atuação e,
por isso, acaba priorizando o
atendimento de ocorrências criminais e a prisão do criminoso, deixando
as ocorrências não criminais, geralmente, em segundo plano”. (Grifo nosso)
Perceba
o quanto a ideia de função policial é abreviada em torno das questões criminais
tão somente. Nessa esteira Monjardet (2012, p. 191) colabora:
o quanto a ideia de função policial é abreviada em torno das questões criminais
tão somente. Nessa esteira Monjardet (2012, p. 191) colabora:
(…) não se trata aqui simplesmente
da oposição entre uma polícia preventiva e uma repressiva. Os próprios campos
de atividade são separados, e mais fundamentalmente a relação com a “população”
é invertida: no primeiro, a polícia é
legítima pelos serviços diretos que ela lhe preta; no segundo, a atividade consiste em “policiar” essa mesma
população. A lógica de um é o serviço público, a do outro domina a sociedade
civil. (Grifos nossos)
da oposição entre uma polícia preventiva e uma repressiva. Os próprios campos
de atividade são separados, e mais fundamentalmente a relação com a “população”
é invertida: no primeiro, a polícia é
legítima pelos serviços diretos que ela lhe preta; no segundo, a atividade consiste em “policiar” essa mesma
população. A lógica de um é o serviço público, a do outro domina a sociedade
civil. (Grifos nossos)
Mas
quais funções seriam estas? De maneira responsiva, didática e intersetorial, o tenente-coronel
Cleucimar retrata alguns dos inúmeros serviços realizados pelos policiais
militares: (1) policiamento realizado, (2) público atendido, (3) orientação
fornecida, (4) assistência prestada, (5) conflito social atendido, (6)
ocorrência atendida, (7) boletim registrado, (8) pessoa conduzida, (9)
Blitz/arrastão realizado, (10) pessoa/veículo abordado, (11) material
apreendido, (12) prisão efetuada, (13) escolta de preso realizada, (14)
reintegração de posse cumprida, etc. (Há inúmeras variações que são incalculáveis
e detalhadas).
quais funções seriam estas? De maneira responsiva, didática e intersetorial, o tenente-coronel
Cleucimar retrata alguns dos inúmeros serviços realizados pelos policiais
militares: (1) policiamento realizado, (2) público atendido, (3) orientação
fornecida, (4) assistência prestada, (5) conflito social atendido, (6)
ocorrência atendida, (7) boletim registrado, (8) pessoa conduzida, (9)
Blitz/arrastão realizado, (10) pessoa/veículo abordado, (11) material
apreendido, (12) prisão efetuada, (13) escolta de preso realizada, (14)
reintegração de posse cumprida, etc. (Há inúmeras variações que são incalculáveis
e detalhadas).
Seguindo
o raciocínio do autor, os principais conflitos sociais atendidos pela Polícia
Militar, segundo seu artigo, são: (1) emergências diversas, (2)
desentendimento, (3) atrito/discussão, (4) rixa, (5) vias de fato, (6) distúrbio,
(7) desordem/baderna, (8) contravenção, (9) violência e (10) crime.
o raciocínio do autor, os principais conflitos sociais atendidos pela Polícia
Militar, segundo seu artigo, são: (1) emergências diversas, (2)
desentendimento, (3) atrito/discussão, (4) rixa, (5) vias de fato, (6) distúrbio,
(7) desordem/baderna, (8) contravenção, (9) violência e (10) crime.
No período compreendido
entre 2007 a 2010, a Polícia Militar de Cuiabá atendeu 152.321 ocorrências não criminais, das
quais, apenas 42.541 ocorrências foram efetivamente atendidas e o restante de 109.780
ocorrências deixou de ser atendido. Esse montante aponta para que “cerca de 70%
dessas solicitações podem não ter sido atendidas”. Segundo o autor, muito
provavelmente em razão da preconcepção de que não teriam a “importância”
devida.
entre 2007 a 2010, a Polícia Militar de Cuiabá atendeu 152.321 ocorrências não criminais, das
quais, apenas 42.541 ocorrências foram efetivamente atendidas e o restante de 109.780
ocorrências deixou de ser atendido. Esse montante aponta para que “cerca de 70%
dessas solicitações podem não ter sido atendidas”. Segundo o autor, muito
provavelmente em razão da preconcepção de que não teriam a “importância”
devida.
Mas
então por que tantos esforços concentrados às ações policiais com foco voltado
à criminalidade já que a maioria da
demanda é não criminal? É exatamente este questionamento invertido que
foi proposto em seu brilhante artigo.
então por que tantos esforços concentrados às ações policiais com foco voltado
à criminalidade já que a maioria da
demanda é não criminal? É exatamente este questionamento invertido que
foi proposto em seu brilhante artigo.
O
profissional não pode ser visto como uma mera máquina midiática de realizar
prisões, ele precisa dialogar, este – o diálogo – é o principal “armamento” que
dispõe ao longo do seu tempo de serviço e que compreende como maioria dos
atendimentos prestados em seu turno. Mas então o que é ser policial militar?
profissional não pode ser visto como uma mera máquina midiática de realizar
prisões, ele precisa dialogar, este – o diálogo – é o principal “armamento” que
dispõe ao longo do seu tempo de serviço e que compreende como maioria dos
atendimentos prestados em seu turno. Mas então o que é ser policial militar?
O
termo gera amplas reflexões. Tratados internacionais os impõem necessários
limites, muito embora releguem à sociedade um paiol de garantias, e seus
deveres parecem repousar em berços esplêndidos. A própria missão constitucional
dos policiais militares é de “preservar a ordem pública”, sendo vasta e
inespecífica.
termo gera amplas reflexões. Tratados internacionais os impõem necessários
limites, muito embora releguem à sociedade um paiol de garantias, e seus
deveres parecem repousar em berços esplêndidos. A própria missão constitucional
dos policiais militares é de “preservar a ordem pública”, sendo vasta e
inespecífica.
Arrisco-me
a dizer que o policial militar é sim um assistente social, sociólogo, juiz de
paz, padre, paramédico, jornalista, mediador, e muitas outras funções em um só
ser; e, enfim, sob seus ombros recaem muitas responsabilidades em meio ao
“teatro de operações”. Esse cenário ainda fica muito mais evidente em
localidades longínquas e com pouco ou nenhum equipamento social disponível à
população.
a dizer que o policial militar é sim um assistente social, sociólogo, juiz de
paz, padre, paramédico, jornalista, mediador, e muitas outras funções em um só
ser; e, enfim, sob seus ombros recaem muitas responsabilidades em meio ao
“teatro de operações”. Esse cenário ainda fica muito mais evidente em
localidades longínquas e com pouco ou nenhum equipamento social disponível à
população.
Para
Bayley (2006, p.120), “o público pode ser
encorajado a trazer questões triviais à atenção da polícia se ele acreditar que
vai receber um tratamento simpático” e o mesmo autor ainda aponta que
“Policiais estão interessados em uma boa prisão (…) o público sente que precisa de ajuda em muitas outras situações”
(BAYLEY, 2006, p. 131) (Grifo nosso).
Bayley (2006, p.120), “o público pode ser
encorajado a trazer questões triviais à atenção da polícia se ele acreditar que
vai receber um tratamento simpático” e o mesmo autor ainda aponta que
“Policiais estão interessados em uma boa prisão (…) o público sente que precisa de ajuda em muitas outras situações”
(BAYLEY, 2006, p. 131) (Grifo nosso).
O
reconhecido autor retrata uma realidade muito necessária no arcabouço policial.
É de fundamental importância que as Instituições Policiais Militares possam
revisitar sempre sua práxis de modo que esteja em sintonia com os anseios das
comunidades, visto que “o que o público
realmente leva até a polícia como pedido de serviço depende não só do que eles
sentem que precisam, mas também do que eles acreditam que a polícia está
interessada em tratar” (BAYLEY; SKOLNICK,
2006, p. 131).
reconhecido autor retrata uma realidade muito necessária no arcabouço policial.
É de fundamental importância que as Instituições Policiais Militares possam
revisitar sempre sua práxis de modo que esteja em sintonia com os anseios das
comunidades, visto que “o que o público
realmente leva até a polícia como pedido de serviço depende não só do que eles
sentem que precisam, mas também do que eles acreditam que a polícia está
interessada em tratar” (BAYLEY; SKOLNICK,
2006, p. 131).
Esses
argumentos exigem por si só e cada vez mais a formação de profissionais ecléticos
que sim, devem se preocupar com prisões e apreensões, mas, principalmente, com
a gênese desses incidentes, a ênfase na prevenção primária, na reorientação do
patrulhamento, no policiamento planejado com base na comunidade e seus anseios
e com a abrangência e complexidade nos atendimentos.
argumentos exigem por si só e cada vez mais a formação de profissionais ecléticos
que sim, devem se preocupar com prisões e apreensões, mas, principalmente, com
a gênese desses incidentes, a ênfase na prevenção primária, na reorientação do
patrulhamento, no policiamento planejado com base na comunidade e seus anseios
e com a abrangência e complexidade nos atendimentos.
Em
curtíssima síntese, segurança pública, tradicionalmente sempre foi visualizada
como uma simples equação matemática e cartesiana, onde seria igual a (efetivo +
viatura + armamento + fardamento + operações).
curtíssima síntese, segurança pública, tradicionalmente sempre foi visualizada
como uma simples equação matemática e cartesiana, onde seria igual a (efetivo +
viatura + armamento + fardamento + operações).
Não
se pode ignorar o conhecimento imenso desses profissionais que está calçado em vivências
profundas nos mais inóspitos subterrâneos sociais. Nessa linha de raciocínio
corrobora a professora Jaqueline Muniz em sua obra “Ser policial, é, sobretudo,
uma razão de ser”: “Os “mundos” que os PMs visitam e que constituem o seu
próprio mundo policial são difíceis de descrever, são duros de explicar e, em
boa medida, são desagradáveis de assistir e de frequentar por muito tempo”. (Muniz,
1999, p. 158).
se pode ignorar o conhecimento imenso desses profissionais que está calçado em vivências
profundas nos mais inóspitos subterrâneos sociais. Nessa linha de raciocínio
corrobora a professora Jaqueline Muniz em sua obra “Ser policial, é, sobretudo,
uma razão de ser”: “Os “mundos” que os PMs visitam e que constituem o seu
próprio mundo policial são difíceis de descrever, são duros de explicar e, em
boa medida, são desagradáveis de assistir e de frequentar por muito tempo”. (Muniz,
1999, p. 158).
A
renomada autora ainda destaca:
renomada autora ainda destaca:
Os PMs privam de um saber
especial e doloroso que, em boa parte, costuma ser partilhado somente com
outros policiais e, às vezes, com seus familiares. As reservas em expor esse
saber a outras pessoas – mesmo as mais íntimas – resulta, em parte, da
propositada percepção de que esse conhecimento choca, expõe as feridas e
desencanta; ele mostra “a nua e crua realidade” dos atos. Em certa medida, ele
desumaniza aqueles que, de algum modo, dele partilham…
especial e doloroso que, em boa parte, costuma ser partilhado somente com
outros policiais e, às vezes, com seus familiares. As reservas em expor esse
saber a outras pessoas – mesmo as mais íntimas – resulta, em parte, da
propositada percepção de que esse conhecimento choca, expõe as feridas e
desencanta; ele mostra “a nua e crua realidade” dos atos. Em certa medida, ele
desumaniza aqueles que, de algum modo, dele partilham…
Essa bagagem subterrânea pode
promover uma arquitetura muito adequada se for revertida à prevenção que, sem
dúvidas, é a mais adequada forma de trabalho policial, assim entendem autores
nacionais e internacionais como Daniel Cerqueira, Jaqueline Muniz, Marcos Rolim,
Luiz Eduardo Soares, Theodomino Dias Neto, David Bayley, Jeronime Skolnick, Herman
Goldstein, Dominique Monjardet, Stanley Vanagunas, e tantos outros que levantam
a bandeira de polícia comunitária e uma revolução psicológica no planejamento
policial.
promover uma arquitetura muito adequada se for revertida à prevenção que, sem
dúvidas, é a mais adequada forma de trabalho policial, assim entendem autores
nacionais e internacionais como Daniel Cerqueira, Jaqueline Muniz, Marcos Rolim,
Luiz Eduardo Soares, Theodomino Dias Neto, David Bayley, Jeronime Skolnick, Herman
Goldstein, Dominique Monjardet, Stanley Vanagunas, e tantos outros que levantam
a bandeira de polícia comunitária e uma revolução psicológica no planejamento
policial.
A
inteligência social coroa com êxito esse raciocínio. Segundo Daniel Goleman, os
termos compreendem “a habilidade de entender e reagir adequadamente a seu meio
social e desenvolver relações saudáveis e produtivas”.
inteligência social coroa com êxito esse raciocínio. Segundo Daniel Goleman, os
termos compreendem “a habilidade de entender e reagir adequadamente a seu meio
social e desenvolver relações saudáveis e produtivas”.
O
site do Instituto Menthes retrata de modo muito interessante o poder da
aplicação dessa inteligência: “Uma pessoa que tem essa competência sabe
entender os interlocutores, sabe ouvir, se comunicar, trabalhar em equipe,
liderar, lidar com os conflitos e, especialmente, tem a capacidade de entrar em
empatia com o seu próximo, isto é, estar atento aos sentimentos do outro e
aberto ao diálogo”. Substituamos a pessoa por uma Instituição inteira, teríamos
então algo surpreendente, projetos verdadeiros, diálogos verdadeiros e a
sensação intrigante de pertencer a um conjunto que valha a pena.
site do Instituto Menthes retrata de modo muito interessante o poder da
aplicação dessa inteligência: “Uma pessoa que tem essa competência sabe
entender os interlocutores, sabe ouvir, se comunicar, trabalhar em equipe,
liderar, lidar com os conflitos e, especialmente, tem a capacidade de entrar em
empatia com o seu próximo, isto é, estar atento aos sentimentos do outro e
aberto ao diálogo”. Substituamos a pessoa por uma Instituição inteira, teríamos
então algo surpreendente, projetos verdadeiros, diálogos verdadeiros e a
sensação intrigante de pertencer a um conjunto que valha a pena.
O
mundo jurídico nos induz à necessidade que seja imperativa à “imparcialidade”,
mas esta pode gerar a “indiferença” no trato dos atendimentos prestados pelo
profissional de segurança pública à sociedade em conflito. Isso requer capacidade
de leituras para além do imediatismo e pirotecnias muito presentes em programas
que aludem a espetacularização do crime e da violência e que retroalimentam as
iniciativas reativas da polícia.
mundo jurídico nos induz à necessidade que seja imperativa à “imparcialidade”,
mas esta pode gerar a “indiferença” no trato dos atendimentos prestados pelo
profissional de segurança pública à sociedade em conflito. Isso requer capacidade
de leituras para além do imediatismo e pirotecnias muito presentes em programas
que aludem a espetacularização do crime e da violência e que retroalimentam as
iniciativas reativas da polícia.
A
atuação policial sofre, talvez, uma contaminação midiática e pirotécnica. A
reflexão e comedimento devem pautar-se de maneira sóbria para quem está in loco para adotar as providências
necessárias para cada caso, sem se contaminar e atuar dentro da legalidade, mas
sem perder o forte componente da inteligência social envolvida.
atuação policial sofre, talvez, uma contaminação midiática e pirotécnica. A
reflexão e comedimento devem pautar-se de maneira sóbria para quem está in loco para adotar as providências
necessárias para cada caso, sem se contaminar e atuar dentro da legalidade, mas
sem perder o forte componente da inteligência social envolvida.
Jorge
da Silva, coronel da Reserva Remunerada da Polícia Militar do Rio de Janeiro,
doutor em Ciências Sociais pela UERJ, cita os três paradigmas das concepções da
segurança pública muito presentes no cenário nacional: militarista, penalista e
prevencionista. Este último indica o caminho ideal a ser seguido: práticas e capacitações
muito mais reflexivas. Para Sousa (2012, p. 403): “Tudo isso requer que o
policial de rua possua uma série de
conhecimentos, habilidades e capacidade para estabelecer contato,
comunicação e manter um relacionamento de qualidade com a população durante o
atendimento de suas demandas”. (Grifo nosso)
da Silva, coronel da Reserva Remunerada da Polícia Militar do Rio de Janeiro,
doutor em Ciências Sociais pela UERJ, cita os três paradigmas das concepções da
segurança pública muito presentes no cenário nacional: militarista, penalista e
prevencionista. Este último indica o caminho ideal a ser seguido: práticas e capacitações
muito mais reflexivas. Para Sousa (2012, p. 403): “Tudo isso requer que o
policial de rua possua uma série de
conhecimentos, habilidades e capacidade para estabelecer contato,
comunicação e manter um relacionamento de qualidade com a população durante o
atendimento de suas demandas”. (Grifo nosso)
Neste
diapasão pode-se inferir que qualquer profissão, seja ela com foco na segurança
pública ou não, requer de seus profissionais uma visão ampla dos complexos
desafios sociais que lhes são postos. A inteligência social entra em cena de
forma responsiva.
diapasão pode-se inferir que qualquer profissão, seja ela com foco na segurança
pública ou não, requer de seus profissionais uma visão ampla dos complexos
desafios sociais que lhes são postos. A inteligência social entra em cena de
forma responsiva.
Não
há como em plena era contemporânea negar ou resistir aos profissionais de
segurança pública um caminho delimitado a seguir com focos unidirecionais
reativos e midiáticos. Todos precisam refletir o seu papel social no plano da
segurança pública. A mensuração de “eficácia” é complexa dada a profundidade
envolvida nesses cenários. Em 1829, Robert Peel já enunciava em seus nove
preciosos princípios que “(…) o teste da eficiência policial é a ausência do
crime e da desordem, e não da
evidência visível das ações policiais ao lidar com elas”. Bandaruk
(2007) apud (COSTA e FERNANDES, 2012, p. 138 a 140). (Grifo nosso)
há como em plena era contemporânea negar ou resistir aos profissionais de
segurança pública um caminho delimitado a seguir com focos unidirecionais
reativos e midiáticos. Todos precisam refletir o seu papel social no plano da
segurança pública. A mensuração de “eficácia” é complexa dada a profundidade
envolvida nesses cenários. Em 1829, Robert Peel já enunciava em seus nove
preciosos princípios que “(…) o teste da eficiência policial é a ausência do
crime e da desordem, e não da
evidência visível das ações policiais ao lidar com elas”. Bandaruk
(2007) apud (COSTA e FERNANDES, 2012, p. 138 a 140). (Grifo nosso)
Neste
sentido, segundo Bayley (2006, p.240):
sentido, segundo Bayley (2006, p.240):
“O
policiamento se tornará tão extensivo e sutil quanto diferentes reivindicações
das populações. E a polícia ganhará legitimidade e respeitabilidade enfrentando
tais problemas e associando-se a esses esforços básicos que promovem a
prevenção dos crimes. O Japão é um exemplo disso”
policiamento se tornará tão extensivo e sutil quanto diferentes reivindicações
das populações. E a polícia ganhará legitimidade e respeitabilidade enfrentando
tais problemas e associando-se a esses esforços básicos que promovem a
prevenção dos crimes. O Japão é um exemplo disso”
Enfim,
o caminhar institucional das Polícias Militares brasileiras requer, além da obediência
irrestrita à legalidade, a abertura às práticas e capacitações reflexivas em torno
da inteligência social e emocional envolvidas. A legitimidade impera muito mais
do que meras demonstrações de força e/ou a fria distância imposta no binômio
imparcialidade/indiferença. Quando a inteligência social está reafirmada, aí
sim temos a força institucional que se pretende.
o caminhar institucional das Polícias Militares brasileiras requer, além da obediência
irrestrita à legalidade, a abertura às práticas e capacitações reflexivas em torno
da inteligência social e emocional envolvidas. A legitimidade impera muito mais
do que meras demonstrações de força e/ou a fria distância imposta no binômio
imparcialidade/indiferença. Quando a inteligência social está reafirmada, aí
sim temos a força institucional que se pretende.
A
compreensão das limitações das Polícias Militares em antagonismo às suas
abrangências de atendimento requer intensas práticas formativas, debates
reflexivos e simulações associadas às ocorrências não criminais, sendo, talvez,
as principais gêneses da consolidação delitiva. Este é o melhor e mais
desafiante caminho a ser trilhado em uma democracia em formação: o equilíbrio
entre os saberes e o que efetivamente nossos profissionais estão se deparando
em seus respectivos cotidianos com ênfase aos anseios das comunidades atendidas.
compreensão das limitações das Polícias Militares em antagonismo às suas
abrangências de atendimento requer intensas práticas formativas, debates
reflexivos e simulações associadas às ocorrências não criminais, sendo, talvez,
as principais gêneses da consolidação delitiva. Este é o melhor e mais
desafiante caminho a ser trilhado em uma democracia em formação: o equilíbrio
entre os saberes e o que efetivamente nossos profissionais estão se deparando
em seus respectivos cotidianos com ênfase aos anseios das comunidades atendidas.
Referências
BAYLEY, David H. Padrões de Policiamento. Uma análise
Internacional Comparativa / David H. Bayley; tradução de Renê Alexandre
Belmonte. – 2. Ed. 1. reimpr. – São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo, 2006. – (Série Polícia e Sociedade; n.1)
Internacional Comparativa / David H. Bayley; tradução de Renê Alexandre
Belmonte. – 2. Ed. 1. reimpr. – São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo, 2006. – (Série Polícia e Sociedade; n.1)
COSTA, Júlio Cezar; FERNANDES, João Antonio da Costa. Segurança pública: convergência,
interconexão e interatividade social. Vitória: Editora do autor, 2012.
interconexão e interatividade social. Vitória: Editora do autor, 2012.
GOLDSTEIN, Herman. Policiando uma sociedade livre. – São Paulo: editora da
Universidade de São Paulo, 2003. – (Série Polícia e Sociedade; n.
9/Organização: Nancy Cardia).
Universidade de São Paulo, 2003. – (Série Polícia e Sociedade; n.
9/Organização: Nancy Cardia).
GOLEMAN,
Daniel. Inteligência social [recurso
eletrônico] : o poder das relações humanas / Daniel Goleman ; tradução Ana
Beatriz Rodrigues. – Rio de Janeiro : Elsevier, 2011.
Daniel. Inteligência social [recurso
eletrônico] : o poder das relações humanas / Daniel Goleman ; tradução Ana
Beatriz Rodrigues. – Rio de Janeiro : Elsevier, 2011.
MONJARDET, Dominique. O que a Polícia faz: Sociologia da força pública. – São Paulo:
editora da Universidade de São Paulo, 2012. – (Série Polícia e Sociedade; n.
10/Organização: Nancy Cardia).
editora da Universidade de São Paulo, 2012. – (Série Polícia e Sociedade; n.
10/Organização: Nancy Cardia).
MUNIZ, Jaqueline. “Ser policial é, sobretudo, uma razão de ser” Cultura e
Cotidiano da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Tese apresentada
ao Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro como requisito
parcial para a obtenção do grau de Doutor em Ciência Política. Disponível em:
< https://www.ucamcesec.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Ser_policial_sobretudo_razao_ser.pdf
>. Acesso em: 17 abr. 2018.
Cotidiano da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Tese apresentada
ao Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro como requisito
parcial para a obtenção do grau de Doutor em Ciência Política. Disponível em:
< https://www.ucamcesec.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Ser_policial_sobretudo_razao_ser.pdf
>. Acesso em: 17 abr. 2018.
O poder da inteligência
social. Disponível em:
https://menthes.com.br/o-poder-da-inteligencia-social/ Acesso em: 18 abr. 2018.
social. Disponível em:
https://menthes.com.br/o-poder-da-inteligencia-social/ Acesso em: 18 abr. 2018.
SILVA, Jorge da. Concepções
sobre a segurança pública no brasil. Paradigmas em competição. Artigo
disponível em: < http://www.jorgedasilva.com.br/artigo/53/concepcees-sobre-a-seguranca-publica-no-brasil.-paradigmas-em-competicao/>.
Acesso em 17 abr. 2018.
sobre a segurança pública no brasil. Paradigmas em competição. Artigo
disponível em: < http://www.jorgedasilva.com.br/artigo/53/concepcees-sobre-a-seguranca-publica-no-brasil.-paradigmas-em-competicao/>.
Acesso em 17 abr. 2018.
SOUSA, Clelcimar
S. Rabelo de. O serviço policial, os conflitos sociais e o foco de atuação
do policiamento de rádio patrulha em Cuiabá. Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 6,
n. 2, 390-411 Ago/Set 2012.
S. Rabelo de. O serviço policial, os conflitos sociais e o foco de atuação
do policiamento de rádio patrulha em Cuiabá. Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 6,
n. 2, 390-411 Ago/Set 2012.

