O ex-prefeito de Vitória e pré-candidato a governador pelo Republicanos, Lorenzo Pazolini, está sendo acusado de ter usado espaço público para fazer propaganda pessoal. O culto à personalidade de Pazolini foi feita em atividade pedagógica no Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Zélia Viana de Aguiar, situado no bairro Santa Luíza, na Capital do Espírito Santo.
A exposição de um painel contendo a frase “Homenagem ao nosso prefeito Lorenzo Pazolini”, no qual crianças em idade pré-escolar foram instruídas a desenhar e completar metade do rosto do ex-mandatário municipal, transformou o espaço escolar em palco de questionamentos éticos e inflamou os debates na Câmara de Vereadores.
Embora um CMEI seja dedicado ao ensino infantil, destinado a crianças de 0 a 5 anos de idade, a unidade é frequentada por pais de alunos, demais familiares, além do corpo docente e demais funcionários do estabelecimento. A suposta propaganda de Pazolini foi feita no CMEI ainda no período em que ele estava à frente do Executivo Municipal – Pazolini deixou o cargo no início de abril de 2026 por conta da Legislação Eleitoral, sendo substituído pela vice Cris Samorini (PP).
O episódio ganha contornos de extrema gravidade em virtude do calendário político. Lorenzo Pazolini projeta-se no cenário estadual como pré-candidato ao Governo do Espírito Santo. A veiculação de sua imagem e a indução de sua figura como um objeto de suposta reverência por familiares de alunos da rede pública foram interpretadas por analistas e parlamentares como uma flagrante manobra de promoção pessoal e desvirtuamento das diretrizes educacionais básicas.
Indícios de Coerção e Doutrinação Infantil
O assunto foi levado formalmente na Tribuna da Câmara Municipal de Vitória na sessão da última segunda-feira (01/06) pelo vereador Pedro Trés (PSB), que protocolou pedidos de esclarecimento direcionados à Prefeitura e à Secretaria Municipal de Educação (Seme). De acordo com os relatos obtidos pelo gabinete do parlamentar, os abusos éticos teriam extrapolado os murais de desenho. Testemunhas relatam que crianças foram submetidas a ensaios rigorosos para uma apresentação de dança dedicada ao ex-prefeito Pazolini.
“A informação que nos chegou aponta que os alunos foram fortemente pressionados a realizar a coreografia de forma ‘bonitinha’, sob o argumento explícito de que o prefeito seria ‘a pessoa mais importante’. Crianças ficaram nitidamente nervosas e constrangidas com a cobrança em torno da figura do gestor”, pontuou Pedro Trés, em pronunciamento em plenário.
Para o vereador, a conduta caracteriza uma grave afronta ao Artigo 37 da Constituição Federal, que rege o princípio da impessoalidade na administração pública: “O culto à personalidade não possui qualquer guarida na democracia brasileira moderna, muito menos quando instrumentaliza a infância para consolidar heranças políticas em ano eleitoral”, disparou Trés, cobrando a ata do projeto pedagógico que teoricamente amparou o exercício de exaltação.
Uso da Máquina Pública e Representação ao Ministério Público
A repercussão ganhou a adesão da vereadora Karla Coser (PT), que qualificou o acontecimento como “assustador”. Segundo a parlamentar, o caso do CMEI Zélia Viana de Aguiar não se trata de um fato isolado, mas sim de uma engrenagem sistemática de utilização da estrutura municipal para fixação de marcas político-partidárias na mente do eleitorado e dos cidadãos.
Karla Coser anunciou que as evidências fotográficas dos desenhos das crianças serão anexadas a uma Representação jurídica já em curso no Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES). A denúncia principal investiga o uso de um padrão de cores específico na pintura de dezenas de escolas de Vitória. O padrão, segundo avaliação dos parlamentares, remete de forma direta e subliminar à identidade visual de campanha adotada por Pazolini e por sua aliada, a prefeita Cris Samorini.
As imagens que circulam nos bastidores políticos e redes sociais revelam o painel montado em um dos principais corredores de fluxo da creche municipal. Cercado por molduras vibrantes e recortes confeccionados com cartolina, o rosto do ex-prefeito Lorenzo Pazolini foi impresso parcialmente em folhas de papel. Coube às crianças, cujas idades variam em fases de formação cognitiva inicial, traçar os olhos, cabelos e expressões que faltavam na imagem da autoridade pública. A ausência de neutralidade na condução da atividade reacende o debate sobre os limites das manifestações institucionais.



