O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente da República, admitiu ter mantido contato por quase um ano com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, período durante o qual articulou um apoio de R$ 134 milhões para a realização de um filme sobre a vida de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão por conta de condenação pela tentativa de golpe de Estado em, 2022. O caso foi revelado na quarta-feira (13/05) em uma reportagem do portal The Intercept Brasil..
Em nota, Flávio Bolsonaro confirmou o pedido de recurso e a relação com Vorcaro, mas destacou tratar-se de uma questão privada.
“É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet. Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro. O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme”, disse o parlamentar na manifestação, horas após a publicação da reportagem.
Ainda na nota, Flávio Bolsonaro nega ter combinado qualquer vantagem indevida no trato com o banqueiro. “Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do MASTER JÁ”, completou.
Após a nota, um vídeo de Flávio repetindo os mesmos argumentos também está sendo divulgado nas redes sociais. Nessa gravação, ele diz que Vorcaro parou de honrar com as parcelas pendentes do patrocínio e informa que havia um contrato assinado a respeito desses repasses prometidos.
Áudio revelado
Ao revelar o envolvimento entre Flávio e Vorcaro, a reportagem do Intercept divulgou um áudio do próprio senador que menciona a importância do filme sobre o pai e a necessidade do envio dos recursos para pagar “parcelas para trás”.
“Apesar de você ter dado a liberdade de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando. É porque está em um momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso e fico preocupado com o efeito contrário com o que a gente sonhou para o filme”, disse o senador na mensagem trocada com o banqueiro.
A reportagem revela também, com base em outras mensagens de WhatsApp vazadas, bem como em documentos e comprovantes bancários, que parte do valor teria sido pago entre fevereiro e maio de 2025.
Prisão
As últimas conversas entre ambos, reveladas pela reportagem, datam do início de novembro do ano passado, um período crítico para o Banco Master e Vorcaro. Pouco mais de uma semana depois dessa troca de mensagens, o Banco Central decretou a liquidação do Master e a Polícia Federal prendeu o banqueiro em um dos desdobramentos da operação sobre fraudes financeiras. Atualmente, Daniel Vorcaro está preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília e negocia um possível acordo de delação premiada.
O filme estaria sendo realizado por uma produtora no exterior, com atores e equipes estrangeiros, e tem previsão de ser lançado ainda este ano. Segundo a matéria, o apoio envolveu transferências internacionais de uma empresa controlada por Vorcaro a um fundo dos Estados Unidos gerido por Paulo Calixto, advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.
A aproximação entre Flávio e Vorcaro
A primeira aproximação entre Flávio e o banqueiro, segundo o material analisado pelo Intercept, teria ocorrido em 8 de dezembro de 2024, quando o publicitário Thiago Miranda organizou um encontro entre os dois em Brasília. Na mensagem para confirmar o encontro, Miranda afirmou ao banqueiro que o senador queria tratar do “filme do presidente”, acrescentando que “Flavio está ciente de tudo”.
“Confirmei com o Flávio Bolsonaro. Quarta dia 11 às 17:30 aqui na sua casa de Brasília. Ok?”, pergunta Miranda.
Vorcaro respondeu dando ok.
Ainda, segundo o Intercept, pouco menos de uma hora após o horário previsto para o encontro, às 18h24, o deputado federal Mario Frias (PL-SP) enviou um áudio para Vorcaro agradecendo pelo apoio ao projeto.
Frias teria dito que o filme “vai mexer com o coração de muita gente” e seria importante para o país. Na sequência, ele e o banqueiro fizeram uma ligação telefônica entre si.
Nos meses seguintes, segundo o Intercept, as mensagens obtidas indicam avanço das negociações e um cronograma de pagamentos acompanhado diretamente por Vorcaro e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado pela Polícia Federal como seu principal operador financeiro. Zettel também está preso, negociando acordo de delação premiada.
“No dia 21 de janeiro, Zettel explicou a Vorcaro que o filme teria um fluxo específico de pagamentos: dez parcelas de 2,5 milhões de dólares. Meses depois, em agosto do mesmo ano, Miranda enviou a Daniel Vorcaro um documento com uma tabela indicando que o fluxo de pagamentos acordado foi diferente: 14 parcelas – 12 delas de 1,666 milhão de dólares e duas de 2 milhões de dólares”, diz um trecho da reportagem do site.
Em entrevista ao Globo, Miranda disse que o projeto do filme foi apresentado a ele pelo deputado federal Mario Frias, que o procurou para pedir ajuda por estar com dificuldade de financiamento.
“Eu tive uma reunião com o Mario Frias, que me apresentou o projeto. Conversei com vários empresários e mostrei pro Daniel [Vorcaro]. O Daniel falou: ‘Cara, eu tenho interesse, sim, em patrocinar’. Na verdade, não é patrocinar, é ser investidor”, afirmou Miranda ao jornal.
“Levei pro Mario Frias, falei: ‘Olha, o Daniel vai entrar’. O contrato foi assinado”, disse ainda.
Miranda afirmou ao O Globo que a ligação de Vorcaro com o filme não apareceria publicamente.
Em nota divulgada na noite desta quarta-feira, Mario Frias contradiz Flávio Bolsonaro e nega qualquer participação financeira do empresário Daniel Vorcaro na produção.
“Como já esclareceu a produtora GOUP Entertainment, não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse. E, ainda que houvesse, não haveria problema algum: trata-se de relação estritamente privada, entre adultos capazes, sem um único real de dinheiro público envolvido. E, na época, não havia qualquer suspeita a ele e seu banco”, diz um trecho do comunicado divulgado em seu perfil no X.
“Há uma tentativa permanente de descredibilizar a obra perante a opinião pública, investidores e parceiros do setor audiovisual, muitas vezes por motivações claramente políticas e ideológicas.”



