Tramita na 8ª Vara Criminal de Vitória um processo referente a uma prisão em flagrante feita por uma equipe da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado do Espírito Santo (FICCO), em 9 de setembro de 2025, que culminou numa ação penal de crime de lavagem de dinheiro. Na tarde daquele dia, Lucas de Araújo Santos e Jairo da Silva Leite Júnior foram presos dentro da agência do Sicoob da Reta da Penha, em Vitória, depois de sacar R$ 2 milhões em espécie.
Seis meses depois, surge a suspeita de que Lucas e Jairo seriam ‘laranjas’ de uma empreiteira capixaba, envolvida em um esquema criminoso de corrupção, e o dinheiro seria para pagamento de propina a gestores de uma determinada Prefeitura da Grande Vitória. Com os dois, a Polícia Federal apreendeu duas listas com nomes de gestores públicos municipais e políticos que seriam beneficiados com a propina.
Da agência bancária, Lucas e Jairo foram levados para a Superintendência Regional da Polícia Federal, em São Torquato, Vila Velha. Lá, foram autuados em flagrante pela prática dos crimes previstos no 1º inciso II da lei 9613/98. Ficaram presos, mas soltos dias depois por meio de habeas-corpus e respondem ao processo em liberdade. Vale lembrar que a FICCO é composta pela Polícia Federal, Secretaria Nacional de Políticas Penais, Polícia Penal e Polícia Militar do Espírito Santo e pelas Guardas Municipais de Cariacica, Serra, Viana, Vila Velha e Vitória.
De acordo com a denúncia oferecida pelo Ministério Público Estadual, Lucas e Jairo, “de forma consciente e voluntária, ocultaram e dissimularam a natureza, origem, localização e movimentação de valores provenientes de infrações penais antecedentes, notadamente crimes de corrupção ativa e passiva relacionados a contratos públicos.”
Na denúncia, o MP detalha que a equipe da FICCO (leia-se Polícia Federal) realizava vigilância direcionada a Lucas, quando ele foi visualizado ingressando, por volta das 15h30 do dia 9 de setembro do ano passado, na agência do Sicoob situada na Avenida Nossa Senhora da Penha, nº 1277-A, no bairro Santa Lúcia. Pouco depois, às 15h40, chegou ao local seu comparsa Jairo, dirigindo o Chevrolet Equinox, placas PLV4F43, “desembarcando com duas mochilas vazias e apresentando comportamento visivelmente nervoso.”
Ainda segundo a denúncia, Lucas se dirigiu ao caixa de atendimento acompanhado do gerente da agência, e, depois, foi para o segundo andar. “Após sua saída, o gerente chamou JAIRO, que foi conduzido a ambiente reservado. Na sequência, o gerente abriu a porta dos fundos da agência e JAIRO saiu portando as mochilas agora visivelmente cheias, além de dois pacotes em mãos”, prossegue o Ministério Público.
Ainda de acordo com os autos, “os Policiais Federais paralelamente realizaram a abordagem dos denunciados, momento em que JAIRO informou que estava transportando a quantia de R$ 2 milhões em espécie”. Jairo informou que tinha sacado o dinheiro para outra pessoa, que ele alegou não conhecer. No entanto, Lucas, que foi abordado ao lado externo da agência, limitou-se a afirmar que havia emprestado seu nome para abertura de empresa e de conta bancária.
A denúncia do Ministério Público foi protocolada em 18 de setembro de 2025 e acolhida pelo juiz da 8ª Vara Criminal de Vitória, Paulo Sérgio Bellúcio, no dia 24 do mesmo mês. Inicialmente, o Inquérito Policial, depois de concluído pela Polícia Federal, havia sido sorteado para outro juiz de uma outra Vara Criminal da Capital. No entanto, ele se considerou impedido para permanecer nos autos por conta de seu grau de parentesco com um determinado ex-deputado federal e ex-secretário de Estado da Fazenda que tem ligação com nomes que constam na lista da propina recolhida com os dois homens presos dentro do Sicoob sacando os R$ 2 milhões.
O esquema de corrupção, conforme se observa na ‘lista da propina’ apreendida com Jairo e Lucas, constam nomes de gestores com estreita ligação com o presidente de um determinado partido político e até com uma das figuras mais importantes dos últimos anos no cenário político capixaba – hoje, ele está fora do poder, mas com influência, sobretudo, no nicho de políticos da direita.
A denúncia do Ministério Público Estadual, embora chegue em boa hora, deixa, entretanto, algumas lacunas. Se a Polícia Federal, por meio da FICCO, efetuou a prisão de dois homens sacando R$ 2 milhões em espécie num banco, ficam as indagações:
– Quem é ou são os donos REAIS da empresa?
– Quem seriam os beneficiados com o saque?
– Para quem a empresa prestava serviços?
– Quem coordenava o trabalho efetuado pela empresa foi ou é sócio/assessor de qual agente político?
– Por que os beneficiários não foram citados no Inquérito Policial e nem na denúncia?



