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O relógio nas paredes da Câmara Municipal de Vitória parece ditar um ritmo de espera ansiosa. Entre os corredores e gabinetes, o sentimento predominante não é o de debate democrático, mas o de uma contagem regressiva silenciosa. Relatos colhidos sob condição de anonimato revelam um cenário alarmante: legisladores eleitos pelo povo que, impedidos de exercer suas funções constitucionais, aguardam a saída do atual prefeito da Capital capixaba, Lorenzo Pazolini (Republicanos), como quem esperam pelo fim de um cerco.

O que se descreve nos bastidores é uma “mordaça silenciosa”. Vereadores, tanto da oposição quanto da própria base aliada, afirmam que qualquer manifestação divergente ou crítica à gestão resulta em punições imediatas. O “modus operandi” da pressão política segue um padrão rígido:

Isolamento Institucional: Agendas com secretários são canceladas sem aviso prévio.

Fechamento de Portas: O acesso direto ao Poder Executivo é interrompido.

Exonerações Punitivas: Cargos de confiança indicados por parlamentares tornam-se “moeda de troca” ou alvo de cortes em caso de votos contrários aos interesses do prefeito.

“O prefeito [Pazolini] é muito difícil de se lidar politicamente. Não atende ligações telefônicas, raramente responde mensagens encaminhadas pelo WhatsApp. Não existe diálogo. Nunca vi algo assim”, desabafou um vereador acostumado a diferentes gestões, mas surpreso com a atual intransigência.

O Estopim: A queda do veto

A crise institucional atingiu seu ápice quando a Câmara Municipal derrubou um veto do Executivo, considerado desnecessário pelos parlamentares. O episódio foi marcado por um fato inusitado: até o próprio líder do prefeito, o vereador Leonardo Monjardim (Novo), votou contra a orientação de Pazolini. A resposta foi um ultimato para a exoneração em massa de indicados políticos, crise que só não escalou devido à intervenção do então secretário Municipal de Governo, Erick Musso, o presidente Estadual do Republicanos.

Contudo, a trégua foi temporária. Musso, que tentou reconstruir as pontes e ouvir as demandas individuais dos 21 vereadores, acabou deixando o cargo após não conseguir suavizar a postura do chefe do Executivo.

Liberdade de Expressão sob Ameaça

A pressão atinge até questões de sensibilidade social e segurança pública. Recentemente, após a morte de um agente da Guarda Municipal, um vereador membro da Comissão de Segurança relatou a impossibilidade de se manifestar publicamente em defesa da categoria por receio de represálias. Leandro Rodrigues, de 49 anos, morreu na manhã do dia 12 de fevereiro de 2026, ao passar mal após a realização do teste de aptidão física (TAF), na área externa do Ginásio Tancredão, no bairro Mário Cypreste. Leandro apresentou quadro de mal-estar. Ele recebeu atendimento imediato da equipe técnica presente no local e foi encaminhado para o Hospital Santa Casa de Misericórdia, mas não resistiu e morreu.

Situações semelhantes ocorreram durante a votação da terceirização dos Prontos-Socorros. Parlamentares que discordavam tecnicamente da medida foram, segundo relatos, proibidos de subir à tribuna da Câmara Municipal para expressar suas ressalvas. Até mesmo gestos simples, como uma foto com um potencial adversário político do prefeito, já resultaram na perda da presidência de comissões. “Somos base, mas não somos respeitados”, relato de um vereador da base aliada.

Olhando para o Futuro

O clima de tensão levanta questionamentos sobre as ambições políticas do atual gestor. No Legislativo, a dúvida é frequente: se a dificuldade de diálogo é aguda com a própria base municipal, como seria a articulação com deputados estaduais e federais em uma eventual candidatura de Lorenzo Pazolini, que é delegado de Polícia Civil licenciado, ao Governo do Estado?

Por ora, a esperança da Casa de Leis repousa na transição de governo. A expectativa em relação à nova prefeita, Cris Samorini – caso, é claro, Pazolini, renuncie ao cargo em abril deste ano para entrar na disputa para governador ou a senador –, é positiva, pautada na promessa de retomada do diálogo institucional. Enquanto isso, os parlamentares seguem o expediente entre o silêncio e a esperança de que, em breve, possam voltar a exercer, plenamente, o mandato concedido pelo voto popular.