A revista Veja publicou reportagem no final de semana – edição nº 2949, de 20 de junho – em que revela como o Espírito Santo, sob a liderança do governador Renato Casagrande (PSB), se transformou em ‘patinho feio’ na área da segurança pública para um exemplo a ser seguido pelos demais Estados brasileiros. ‘Veja’ mostra que um dos segredos para a virada de chave é o Programa Estado Presente em Defesa da Vida, criado por Casagrande em 2011 – no primeiro ano de eu primeiro governo –, e retomado em 2019 – na segunda gestão – depois de ter sido extinto pelo então governador Paulo Hartung (PSD).
A publicação traça um paralelo entre o perfil ideológico de Renato Casagrande com os demais governadores. Afirma no título que “Único Estado comandado pela esquerda no Sudeste, Espírito Santo soma vitórias contra o crime” e diz que a intenção da reportagem “é mostrar como um governo fora do campo da direita pode ser implacável contra a violência”.
A Veja lembra que, em 2011, “a criminalidade era uma chaga para a população do Espírito Santo. Na época, o Estado figurava em segundo lugar no ranking nacional da violência, com uma taxa de 56,4 homicídios por 100 mil habitantes — para comparação, o índice atual da Jamaica, hoje o país mais violento do mundo, é de 49,3.” Informa ainda que “foi nesse contexto brutal de insegurança que Renato Casagrande assumiu pela primeira vez o comando do governo estadual.”
Prossegue a reportagem: “Já em 2025, em seu terceiro mandato, ele [Casagrande] celebra os resultados de uma ampla reforma na segurança que, por meio de investimentos na modernização das polícias, inclusão social e policiamento preventivo, baixou as estatísticas de mortes violentas ao menor patamar em quase três décadas — a taxa atual de homicídios é de 17,62 por 100 mil habitantes. Dessa forma, o único Estado do eixo Sul-Sudeste governado pela esquerda passou a ser visto como referência dentro desse espectro ideológico, que ainda hoje se mostra encurralado pelo desafio de combater a bandidagem sem rasgar a cartilha dos direitos humanos.”
Para a revista Veja, “no cerne das vitórias do Espírito Santo contra o crime está o Programa Estado Presente”, implementado por Renato Casagrande “no primeiro ano de gestão, que tirou as cidades capixabas do topo do ranking da violência e baixou números de homicídios de mais de 2.000 vítimas em 2011 para 852 em 2024.” Cita também que o modelo do programa “une, sob o mesmo prisma, a expansão das políticas de educação, esporte e cultura em áreas vulneráveis com investimentos amplos em tecnologia — a polícia conta hoje com 1.500 câmeras com reconhecimento de rostos e placas de veículos nas ruas do estado, além de outras quinhentas nos ônibus da região metropolitana, monitoramento eletrônico de presos no regime semiaberto e armamentos potentes para patrulhar regiões com forte presença do tráfico.”
A revista Veja mostra também a eficiência das forças policiais capixabas no enfrentamento à criminalidade e aborda o aumento da letalidade policial: o número de mortos foi de 33 em 2018 para 78 em 2024. O governador capixaba, entretanto, respondeu às críticas da revista relativas a esse crescimento de morte de bandidos em confrontos com a polícia: “Não temos a cultura de que bandido bom é bandido morto. Nosso método é enfrentar os criminosos com fortalecimento das forças de segurança e inteligência”, afirmou Renato Casagrande.
De acordo com a Veja, o sucesso capixaba na área da segurança pública “contrasta com a notória dificuldade da esquerda no enfrentamento à violência.” Informa que “um dos piores exemplos vem da Bahia. Governado há quase duas décadas pelo PT, o Estado lidera o ranking de homicídios, com 4.197 vítimas em 2024, e de letalidade policial, somando 1.556 mortes no mesmo ano.
A revista ouviu especialistas, para quem as políticas públicas devem priorizar a inteligência nas investigações, operações direcionadas às lideranças do crime organizado e o sufocamento financeiro das quadrilhas. E neste aspecto, o Espírito Santo está no caminho certo, conforme avalia a diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo:
“O desafio da esquerda é não cair no discurso populista de que a resposta principal é matar o bandido. Os avanços no Espírito Santo não se devem à letalidade policial, e é preciso mostrar que há alternativas que funcionam”.
Ainda de acordo com a Veja, “a dificuldade da esquerda contrasta com a facilidade com que a direita navega nessa área, apoiada no discurso do enfrentamento. A movimentação em torno do tema, no entanto, é cada vez mais plural”, diz trecho da reportagem, para em seguida acrescentar. “Exemplo disso são as visitas a El Salvador, país que virou uma referência de tratamento rigoroso a criminosos presos, de dois políticos com pretensões eleitorais, mas de perfis distintos: o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, e o prefeito do Rio, Eduardo Paes.
“É um país [El Salvador] reconhecido como violador de direitos humanos, mas que oferece soluções eleitoreiras fáceis para a direita, enquanto a esquerda vive à deriva de programas sociais que só conseguem demonstrar resultados no longo prazo”, disse José Álvaro Moisés, cientista político da USP.
A revista Veja publicou também uma entrevista com o governador Renato Casagrande e afirma que “principal preocupação dos brasileiros, a crise de segurança promete estar no centro das campanhas [eleitorais] de 2026.” Por isso, salienta a revista, “a linha-dura capixaba é vista hoje como exemplo de como a esquerda pode ter argumentos para tentar equilibrar o jogo com a direita nesse campo.
Veja – Quais são as dificuldades da esquerda no combate à criminalidade?
Renato Casagrande – Os líderes progressistas precisam ter clareza sobre aquilo que é fundamental: a vida. É importante respeitar os direitos humanos de quem comete o crime, mas também os da vítima. Passar a mão na cabeça do autor é incentivar a impunidade. Eu, por exemplo, defendo o fim da progressão de pena para preso por homicídio, porque quem tira a vida de alguém precisa pagar por isso.
– Em paralelo à redução de crimes, o Espírito Santo vive uma alta da letalidade policial. Não é contraditório com a defesa dos direitos humanos, tão cara à esquerda?
– Não há contradição. Estamos com uma taxa de mortes pela polícia abaixo da média nacional. O Ministério Público e a Corregedoria acompanham de perto as abordagens, e todo policial sabe que estamos atentos. Se há um enfrentamento, existe a possibilidade de morte, mas o nosso interesse é manter o bandido vivo, para que ele pague pelo que fez.
– A segurança será tema central nas eleições de 2026. Isso pode ser ruim para a esquerda?
– Temos que mudar a falsa imagem de que progressistas não se preocupam com segurança. Independentemente da posição ideológica, tratar a população com decência exige punir criminosos. Precisamos ter propostas para isso.



