O prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), está passando por um inferno astral. Primeiro, veio à tona em rede nacional o episódio em que ele e sua vice-prefeita e secretaria Municipal de Desenvolvimento da Cidade e Habitação, Cris Samorini (PP), foram filmados assistindo a um show do Calcinha Preta, em Teresina (Piauí) – fato amplamente divulgado por este Blog do Elimar Côrtes e pela mídia nacional –, no dia 10 de maio de 2025.
Posteriormente, o homem forte da federação formada pelo Partido Progressista e União Brasil, deputado federal Josias Da Vitória (PP), declarou apoio do grupo à pré-candidatura do vice-governador Ricardo Ferraço (MDB) ao Governo do Estado em 2026. Por último, o resultado da pesquisa do Instituto Paraná, divulgada na segunda-feira (02/06), que mostra que Ricardo Ferraço já encostou em Pazolini – que vinha liderando todos os levantamentos – e ambos já se encontram em empate técnico.
A gota d’água do inferno astral veio na manhã desta terça-feira (03/06), quando a Câmara Municipal de Vitória deu mostra de que quer seguir caminho independente e não servir de palanque para o prefeito da Capital capixaba. Numa ação inédita, os vereadores da base de Pazolini rejeitaram dois Projetos de Lei que ele havia vetado e, assim, o Instituto Cultura Viva e o Instituto Camillo Neves (ICN) foram declarados como sendo de Utilidade Pública pela Câmara.
O levante dos vereadores teve o acompanhamento do subsecretário da Secretaria Municipal de Governo, Jocelino Ferreira Fraga. Tão logo ele chegou à Casa legislativa, burburinhos começaram a ser ouvidos pelos corredores. Um deles dava conta de que o prefeito Lorenzo Pazolini teria dado ordem para que haja uma devassa nos cargos comissionados de servidores da Prefeitura indicados por vereadores que votassem pela derrubada dos vetos dos projetos. Em parte, a suposta ameaça de exoneração de servidores deu certo: os vereadores Aloísio Varejão (PSB), Davi Esmael (Republicanos), Luiz Emanuel (Republicanos) e João Flávio (MDB), que são da base aliada do prefeito, saíram da sessão e, segundo seus colegas, para não votar pela derrubada dos vetos e não sofrer constrangimento. [Na madrugada desta quarta-feira (04/06), o vereador João Flávio encaminhou mensagem a este Blog do Elimar Côrtes, informando que teve que se ausentar da sessão por conta de outro compromisso já agendado há mais de 15 dias e o único horário disponível era às 10h30, no meio da votação dos vetos]
Ao vetar projetos aprovados pelos vereadores, o prefeito Pazolini quis dar uma demonstração desnecessária de poder. Quis mostrar que tem controle sobre o Legislativo Municipal, mas se esqueceu de combinar com os vereadores, que reagiram.
Coube ao próprio presidente da Câmara, Anderson Goggi (PP), dá o tom da revolta, embora de modo diplomático. Ele assegurou que vai lutar sempre pela independência do Legislativo Municipal. Afirmou que foi eleito para presidir a Casa com a responsabilidade de garantir a governabilidade, mas não aceitará se “manipulado”. Durante sua fala, Anderson Goggi não citou o nome de Pazolini nenhuma vez:
“Tenho comprometimento com a cidade que é o de dar governabilidade ao prefeito [Pazolini]. Se não for para dar governabilidade ao prefeito, renuncio a presidência no mesmo dia. Não estou sentado na cadeira de presidente para poder ser manipulado e nem para ser induzido a nada. Os vereadores têm e terão meu respeito. Estamos discutindo questões técnicos e o Parlamento tem o seu poder, a sua independência”, disse o presidente.
Em seguida, Anderson Goggi se dirigiu ao interlocutor do prefeito Pazolini junto à Câmara de Vereadores, o subsecretário Jocelino:
“Jocelino, vou falar pra você, que é nosso subsecretário. Esta Casa precisa dialogar. Os Poderes são independentes, porém, harmoniosos, porque quando os Poderes não conversam quem paga é a sociedade”.
Depois, o presidente da Câmara Municipal falou da importância social dos Projetos de Lei vetados pelo prefeito Pazolini. Anderson Goggi ressaltou que os PLs foram vetados mesmo sem que as propostas, que já havia sido aprovadas pelos vereadores, não provoquem nenhum impacto financeiro ao Município, mas que têm grande relevância social:
“Preciso que você [Jocelino, subsecretário de Governo] nos ajude a interceder, porque hoje temos Projetos de Lei sem muita relevância no que diz respeito ao impacto financeiro, impacto de gestão, mas têm relevância para as pessoas que estão dentro desses projetos sociais”.
A aprovação dos Projetos 69/2025 e 109/2025, destacados por Anderson Goggi, foi possível por causa do Projeto de Lei 221/2025, também aprovado na sessão desta terça-feira, e que alterou a Lei Municipal 4230/95 que vetava a remuneração dos dirigentes das entidades de utilidade pública.
Segundo justificado no texto pelo autor, vereador Armandinho Fontoura (PL), “a remuneração de dirigentes em organizações sem fins lucrativos (OSCs) é uma estratégia para garantir a profissionalização da gestão e a sustentabilidade das atividades. Embora muitas pessoas associem OSCs exclusivamente ao voluntariado, a legislação brasileira permite e regulamenta a remuneração desses profissionais, desde que observados critérios específicos”.
Os vereadores pontuaram que essas entidades auxiliam no atendimento às pessoas em vulnerabilidade social. “São pessoas que colaboram com a cidade construindo com suas mãos, e que chegam onde o serviço público não chega”, afirmou o vereador Jocelino (PT).
