Carregando...

O jornalista, escritor e poeta Wilson Figueiredo morreu, no último domingo (20/04), aos 100 anos. Capixaba, ele havia chegado ao centenário em 29 de julho de 2024. Figueiró, como era conhecido, estava no apartamento da família, no Leblon, na Zona Sul do Rio, e faleceu de causas naturais. A informação foi confirmada pela família.

Nascido no município de Castelo, no Sul do Espírito Santo, Wilson Figueiredo foi ainda criança para Minas Gerais, onde morou em Raul Soares, Divinópolis, Montes Claros, Uberaba e Belo Horizonte. Nos 14 anos em que residiu na capital mineira, a partir de 1943, preparou-se para o vestibular de Medicina – que não chegou sequer a tentar – e começou o curso de Letras Neolatinas, sem concluí-lo.

Fisgado pelo jornalismo, por indicação por outro ícone da imprensa brasileira, Carlos Castelo Branco, trabalhou como redator e tradutor na Agência Meridional, então do Estado de Minas. Também atuou como secretário na Folha de Minas, substituindo Jair Rebelo Horta, e foi um dos idealizadores da revista Edifício, que circulou em quatro números ao longo do primeiro semestre de 1946, dando nome à geração a que também pertenceram Autran Dourado, Francisco Iglésias, Octávio Mello Alvarenga e Sábato Magaldi.

Encorajadas pelo amigo Mário de Andrade, suas incursões pela poesia renderam dois livros: “Mecânica do azul”, de 1946 (com capa de Burle Marx e prefácio de Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde), e “Poemas narrativos”, de 1948, ambos depois renegados por Figueiredo, que tratou de recolher rapidamente os exemplares disponíveis

Sua opção pela carreira na imprensa consolidou-se em 1957, com a mudança para o Rio, onde viveu até sua morte. Com passagens pela Última Hora e por O Jornal, foi mesmo no Jornal do Brasil que trilhou a maior parte de seu percurso, testemunhando momentos marcantes da história do JB, como a importante reforma gráfica e editorial de 1959, iniciada por Odylo Costa, filho, Jânio de Freitas e Amílcar de Castro. Foram 45 anos de casa. Repórter, editor, colunista, cronista, editorialista e diretor.

Depois do colapso do “Jornal do Brasil” – onde ficou 45 anos, ou quase meio século, como repórter, editor, colunista, cronista, editorialista e diretor -, Wilson Figueiredo não se aposentou. Aceitou, em 2005, o convite do empresário Chiquinho Brandão para ser consultor-estratégico da FSB, uma das principais agências de comunicação do País.

Em 2015, numa entrevista na TV Globo para a jornalista Helena Lara Rezende, o Wilson respondeu assim à pergunta por que continuava trabalhando com quase 96 anos de idade: “É que eu não saberia o que fazer sem trabalhar.’ Aliás, Helena vem a ser filha de Otto Lara Rezende, integrante de uma geração de notáveis intelectuais mineiros da segunda metade do século XX, ao lado de, entre outros, Hélio Pellegrino, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Pedro Nava, Paulo Mendes Campos e do próprio Wilson Figueiredo.

Sobre “Figueiró” – apelido que ganhou do amigo Hélio Pellegrino -, o escritor e jornalista mineiro Humberto Werneck, que também trocou muitas figurinhas com esta turma, diz: “O que mais me impressionava nele era o genuíno interesse que ele tinha nas pessoas e nas coisas, interesse muito mais que jornalístico, e a generosidade com que se aplicava a elas.”

Werneck prossegue seu depoimento sobre Wilson Figueiredo: “Durante um tempo lamentei que não tivesse colocado em livro um pouco do muito que viu e viveu”. Parte disso, felizmente, desaguou em “E a vida continua”, de 2011, e outro tanto em “Os mineiros — Modernistas, sucessores & avulsos”, de 2018. Falta trazer à luz sua poesia, na qual Mário de Andrade botava fé, por ora recolhida apenas em dois filhos de juventude, “Mecânica do azul” e “Poemas narrativos”.