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Profissionais da segurança pública do Espírito Santo sofreram, em sua maioria, uma expressiva derrota nas eleições deste ano. A derrota deve ser creditada, sobretudo, às entidades de classe ligadas aos policiais militares e bombeiros militares e alguns setores das Polícias Civil e Penal. A maioria das entidades de classe das três polícias  assumiu publicamente apoio à candidatura do ex-deputado federal Carlos Manato, derrotado pelo governador Renato Casagrande (PSB).

No Estado, as eleições deste ano tiveram 43 policiais e bombeiros militares, e 13 policiais civis. Deste total, dois ligados à Polícia Militar foram reeleitos: o deputado federal Josias Da Vitória (PP) e o deputado estadual Capitão Assumção (PL). Também foi eleito o coronel  Weliton Virgílio Pereira, conhecido como Coronel Weliton (PTB).

Da Vitória está na Reserva Remunerada desde final de 2006, quando foi eleito pela primeira vez para deputado estadual. Permaneceu na Assembleia Legislativa por mais dois mandatos consecutivos e, em 2019, assumiu a cadeira na Câmara Federal. A partir do segundo mandato, no entanto, Da Vitória foi tentando desvincular sua imagem da segurança pública justamente por conta da ingratidão dos antigos colegas de farda e se tornou conhecido em todos os setores da sociedade, expandindo suas bases eleitorais para os 78 munícipios capixabas. Portanto, o novo sucesso de Da Vitória não pode ser atribuído ao seu vínculo com os PMs. Longe disso, até porque muitos dos policiais, numa demonstração de ingratidão, deixaram de apoiar o até então cabo Da Vitória.

Capitão Assumção foi para a Reserva em 2008, quando, na condição suplente, se tornou deputado federal graças à vitória de Neucimar Fraga para prefeito de Vila Velha. Frisa-se que, na época, Assumção, era filiado do PSB, do mesmo governador Renato Casagrande. Assumção disputou outras eleições e sempre saiu derrotado, até que, em 2018, por conta de seu envolvimento – considerado criminoso pela Justiça – na ‘greve’ dos policiais militares, em fevereiro de 2017, foi eleito deputado estadual, mandato renovado no pleito de outubro de 2022.

Coronel Weliton encontra-se na Reserva Remunerada desde 2016, quando foi eleito prefeito de Iúna. Tentou a reeleição em 2020 e perdeu. Saiu-se vitorioso logo na primeira tentativa de se tornar deputado estadual.

Como se observa, entre os militares eleitos este ano, o que saiu há menos tempo dos quartéis foi o Coronel Weliton. O último militar eleito no Estado enquanto estava na ativa foi o coronel Alexandre Quintino, em 2018, que, no entanto, perdeu a reeleição este ano. É mais uma demonstração de que, embora se considerem que podem fazer barulho nas eleições, policiais militares capixabas têm obtido pouco sucesso no campo político.

Além das entidades classistas, outro perdedor oriundo das casernas é o chamado Projeto Político Militar (PPM), que tentou, inclusive, se incluir como entidade de classe, fazendo críticas ao governador Casagrande e reagindo “à falta de diálogo” por não ser convidado para s sentar à mesa do Governos. O PPM é presidido pelo cabo PM Nilton Ferreira Goes, atual 1º secretário da Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros (ACS/ES). Cabo Goes fez campanha ostensiva e pública – o que é legítimo – para o candidato perdedor Carlos Manato. Também seguiu na mesma linha o presidente da ACS/ES, cabo PM Jackson Eugênio Silote.

Em março deste ano, o PPM realizou plebiscito interno sobre candidatos que seriam apoiados pela sigla. De todos os nomes, apenas o Coronel Weliton foi eleito. Perderam as eleições o presidente da ACS/ES, Cabo Eugênio, tenente PM Pontes, Cabo PM Fonseca, Major BM Miranda; o ex-vereador por Colatina e soldado da Reserva Remunerada Olmir Castiglioni e o Tenente BM Assis. Sim: o PPM e a ACS/ES apoiaram oficialmente o candidato ao governo Carlos Manato e o presidente Jair Bolsonaro – ambos perdedores.

As entidades de classe dos policiais e bombeiros militares, ao longo dos últimos anos e, notadamente, nessas eleições, ignoraram solenemente as conquistas alcançadas pela categoria junto ao governo do Estado: anistia administrativa para os policiais processados por conta da ‘greve’ de 2017, reajuste salariais diferenciados, alterações nas Leis de Promoção, que tornaram a ascensão profissionais mais justa e célere, dentre outras.

Só para refrescar a memória dos operadores da segurança pública, o governador Renato Casagrande concedeu reajustes salariais para policiais civis e militares, bombeiros militares, policiais penais e agentes socioeducativos que somarão, até final deste ano, 35%. Para soldados da PM e do Corpo de Bombeiros, no entanto, os reajustes chegarão a 45%. O pano de fundo dessa ingratidão é a briga pelo poder. Em breve, essas entidades estarão novamente envolvidas em processos eleitorais internos.

Na Polícia Civil, a derrota também ficou estampada: apenas o delegado aposentado Danilo Bahiense saiu vitorioso, sendo reeleito em outubro deste ano. Outros 12 profissionais ligados à instituição, entre delegados, investigadores, agentes de Polícia, peritos criminais e médicos-legistas, tentaram o mesmo espaço, mas perderam.

Todavia, o maior vitorioso na Polícia Judiciária capixaba foi o presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Estado do Espírito Santo, Aloísio Fajardo, que declarou publicamente o seu apoio pessoal à reeleição de Renato Casagrande. Quem também esteve ao lado da reeleição do governador foi o presidente do Sindicato dos Investigadores, Júnior Fialho, ligado ao PDT do prefeito Sérgio Vidigal, um dos maiores aliados de Casagrande. Diga-se de passagem, Fialho, sua entidade e o Sindicato e a Associação dos Delegados de Polícia Civil passaram mais de três anos fazendo oposição ao governo Casagrande. Júnior Fialho passou a apoiar a reeleição no primeiro turno, enquanto os dirigentes do Sindepes e da Adepol divulgaram nota, nesta  semana, parabizando Renato Casagrande pela reeleição.