Os tiros disparados pelo ex-deputado Roberto Jefferson contra agentes da Polícia Federal, no domingo (23/10), estão provocando preocupação na base bolsonarista e abalaram as campanhas de candidatos a governador aliados do presidente Jair Bolsonaro (PL), que disputa a reeleição, tendo como adversário o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No Espírito Santo, o candidato do PL, o ex-deputado federal Carlos Manato, é intimamente ligado a Roberto Jefferson, que, como presidente de honra do PTB, indicou o empresário Bruno Lourenço de Souza como candidato a vice-governador na chapa de Manato, que disputa este segundo contra o governador Renato Casagrande (PSB).
A ideia inicial de Carlos Manato era disputar o cargo de governador do Espírito Santo pelo PTB, mas acabou se filiando ao Partido Liberal quando viu que o presidente Bolsonaro também se filiou ao PL. No entanto, no PTB ficaram os principais coordenadores da campanha de Manato, como o Tenente Assis, que perdeu a disputa por uma vaga na Câmara Federal, e sua própria esposa, a deputada federal Soraya Manato, que não foi reeleita.
Roberto Jefferson se entregou à Polícia Federal após atacar policiais federais e passar oito horas desrespeitando ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). Jefferson jogou três granadas e mais de 20 tiros de fuzil em agentes que foram cumprir o mandado de prisão em sua casa, na cidade de Comendador Levy Gasparian, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Os tiros disparados por Roberto Jefferson feriram a agente federal Karina Oliveira e o delegado Marcelo Vilella e atingiram uma viatura da PF.
Fontes ligadas à campanha de Carlos Manato informaram na manhã desta segunda-feira (24/10) ao Blog do Elimar Côrtes que o candidato ficou preocupado e aborrecido com a reação criminosa de Roberto Jefferson. Manato chegou a comentar com assessores mais próximos que busquem difundir para aos eleitores capixabas que ele (Manato) não tem qualquer ligação com Jefferson.
A tentativa de Manato em se desvincular de Roberto Jefferson, no entanto, não vai colar. É que foi o próprio Jefferson quem indicou o nome de Bruno Lourenço para a vice de Manato. O nome de Bruno foi anunciado no dia 5 de agosto deste ano por Manato.
No dia 7 de julho, o Tenente Assis, que é o manda-chuva do PTB no Espírito Santo, em entrevista à jornalista Letícia Gonçalves, de A Gazeta, já havia informado que o PTB de Roberto Jefferson iria indicar o nome para a vice de Manato.
Na época, Assis informou que Jeferson viria ao Estado para o anúncio oficial. Não veio, porque Roberto Jefferson se encontrava em prisão domiciliar. E, de fato, o PTB indicado o empresário Bruno Lourenço para vice de Manato. Inclusive, antes da indicação, Bruno esteve na casa de Roberto Jefferson, no Rio, conforme mostra a foto ao lado. Bruno Lourenço, aliás, é o presidente Estadual do PTB.
A ação criminosa de Roberto Jefferson teve repercussão ainda no domingo na classe política capixaba. Candidato à reeleição, o governador Renato Casagrande foi o primeiro a se manifestar, com uma postagem em seu perfil no Twitter:
“O meu adversário tem um vice indicado pelo Roberto Jefferson, que hoje tentou matar um policial federal. Mais um alerta, gente, de que é hora de pesquisar, comparar. Tem que conhecer a história dos candidatos para escolher o melhor para o Espírito Santo. A cada dia que passa a gente descobre que o outro lado, o grupo do retrocesso, não tem capacidade de trazer avanço pro nosso Estado. Quem não respeita a nossa polícia vai respeitar o povo? Não é isso que a gente quer pro capixaba. A gente quer continuar indo pra frente”, escreveu Casagrande, juntando a manchete de um artigo de A Gazeta que afirmava que Jefferson indicaria o vice de Manato.
Depois de ver a manifestação de Casagrande, Carlos Manato reagiu nas redes sociais, com três postagens ao longo da noite de domingo. “É lamentável o que ocorreu hoje. Roberto Jefferson trocou tiros com PF e policiais ficaram feridos. Sabemos tudo que vem passando Roberto Jefferson, mas nada justifica a violência, principalmente contra agentes públicos. Minha solidariedade aos policiais”.
Às 22h, a Assessoria de Imprensa de Manato enviou uma nota à imprensa, repudiando o ataque, mas dizendo que Jefferson se viu “acuado” pelo STF: “Assim como o nosso presidente Jair Bolsonaro, repudio as ações do ex-deputado federal Roberto Jefferson, ocorridas neste domingo (23). Entendo desnecessária a medida que determinou a prisão do ex-parlamentar que, mais uma vez, se vê acuado por parte do Judiciário. Nada justifica a ação descontrolada do ex-deputado que, visivelmente, se viu fora de controle, tomando a atitude desesperada que assistimos estarrecidos. Minha solidariedade aos policiais”.
Mais tarde, Carlos Manato fez outra postagem no Twitter: “Repudio as ações de Roberto Jefferson, ocorridas neste domingo (23). Em meu governo, quem atirar em policiais ou tentar intimidar agentes da lei, terá resposta na mesma proporção. Ações criminosas precisam ser punidas com rigor. Minha solidariedade aos policiais”.
Por que Roberto Jefferson voltou para a prisão comum
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, ordenou a revogação da prisão domiciliar de Jefferson após ele proferir uma série de ofensas à ministra Carmen Lúcia, do STF. Uma das condições para o benefício da prisão domiciliar era de que Roberto Jefferson não fizesse postagens na internet.
No entanto, no sábado (22/10) ele gravou um vídeo chamando a ministra de “Carmen Lúcifer” e afirmava que a magistrada “lembra aquelas prostitutas, aquelas vagabundas arrombadas”. Em sua decisão, o ministro Alexandre Moraes justificou que “está largamente demonstrada, diante das repetidas violações, a inadequação das medidas cautelares (…) o que indica a necessidade de restabelecimento da prisão”.
Presidente de honra do PTB, o ex-parlamentar é investigado em um inquérito sobre a atuação de uma organização criminosa que tem como objetivo “desestabilizar as instituições republicanas”. Após Jefferson reagir com violência à ordem de prisão, o ministro Alexandre de Moraes emitiu no domingo uma segunda ordem para que “diante de todo exposto, independentemente do horário” se efetuasse a prisão. E afirma que “a intervenção de qualquer autoridade em sentido contrário, para retardar ou deixar de praticar, indevidamente o ato, será considerada delito de prevaricação”.
Bolsonaro agora diz que não é aliado de Roberto Jefferson e o chama de ‘bandido’
No Espírito Santo, a base bolsonarista, que é intimamente ligada a Roberto Jefferson, mantém silêncio em relação à ação criminosa do ex-deputado federal contra a Polícia Federal. Mas o presidente Jair Bolsonaro reagiu e, mais uma vez, com uma informação falsa. Primeiro, Bolsonaro negou que Jefferson seja seu aliado.
Ao chegar para uma sabatina na TV Record, na noite de domingo (23/10), o Presidente deu uma declaração de cinco minutos e afirmou que determinou ao ministro da Justiça, Anderson Torres, que desse a Jefferson “tratamento de bandido” por ter atirado em dois policiais enquanto resistia à ordem de prisão.
“Tão logo tomei conhecimento do fato, determinei que o Anderson Torres assumisse (…). Falei para ele de imediato que quem atira em policial, o tratamento é de bandido”, disse Bolsonaro, que foi orientado pelo ex-secretário de Comunicação da Presidência Fabio Wajngarten a não responder a perguntas dos jornalistas.
O Presidente disse que o ministro Torres foi ao Rio de Janeiro visitar os policiais feridos e voltou a dizer que o ex-deputado não é seu aliado, embora ambos estejam no mesmo campo político. Roberto Jefferson está entre os apoiadores mais extremistas de Bolsonaro: “Aqueles que teimam em dizer que Roberto Jefferson é meu aliado, lembrem-se que em setembro ele entrou com uma notícia-crime contra a minha pessoa no Superior Tribunal Militar (STM). Não existe qualquer ligação minha com Roberto Jefferson. Nunca se cogitou ele trabalhar na minha campanha. Quem age dessa maneira está mentindo”, disse Bolsonaro.
Apesar da afirmação, Jefferson e o partido controlado por ele, o PTB, se alinharam durante todo o mandato de Bolsonaro às pautas do governo. O ex-deputado tentou ser candidato à Presidência e teve a chapa barrada. Em seu lugar, como se sabe, assumiu o autodenominado padre Kelmon, que em debates no primeiro turno destas eleições protagonizou dobradinhas em defesa de Bolsonaro.
Quanto à notícia-crime citada por Bolsonaro, trata-se de um processo movido por Roberto Jefferson em que o ex-deputado acusa o Presidente de ser “omisso” por não acionar as Forças Armadas contra o Senado e o STF para promover a cassação do ministro Alexandre de Moraes. À época, Bolsonaro chegou a enviar um pedido de impeachment do ministro, que foi arquivado pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Em seu processo, Jefferson queria que o Presidente usasse o artigo 142 da Constituição para agir contra Senado e a Suprema Corte para impedir a continuidade do inquérito das fake news. A interpretação do artigo da Constituição não tem respaldo entre juristas, mas é a mesma dos grupos mais radicais do bolsonarismo, que defendem golpe de Estado.
Perfil político de Roberto Jeferson é o mesmo de seus aliados capixabas
Roberto Jefferson foi da tropa de choque de então presidente Fernando Collor de Mello, apoiou Fernando Henrique Cardoso, depois Luiz Inácio Lula da Silva, quando delatou o esquema do mensalão, pelo qual foi condenado e preso. E, após cumprir sua pena, chegou a indicar a filha ao governo de Michel Temer, que assumiu a Presidência da República com o impeachment da petista Dilma Rousseff.
Roberto Jeferson tem seguidores no Espírito Santo. Assim como o cacique nacional do PTB, o agora senador eleito Magno Malta (PL) e o candidato Carlos Manato já foram aliados dos mesmo ex-presidentes que Jeferson defendeu: Collor, Fernando Henrique Cardoso e Lula. Assim como Jeferson, Magno Malta e Manato se tornaram bolsonaristas.



